Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | Page 42

LiteraLivre nº 4 Se o fim é conhecido, o que fazer para reverter equívocos? Qual o comando apertar para desviar a rota de colisão? Perguntas que morreriam naquela calçada tão logo solucionasse a questão singular. – Tem razão. O final nem é coerente. Final feliz, bobagem. – Não entendo, dona, mas queria entender. Havia interesse genuíno na explicação sugerida em tom de segredo. – A vida não é um conto de fadas, garoto. É tenho a dizer e é o que você precisa ouvir. – Não é bobagem. O final feliz é tipo uma regra, sacou? O garoto cutucou-a com profundidade, atitude que a idade não deveria lhe conceder. – Regra? A voz da mulher atuou como eco diante da surpresa. – Sim! Mas isso não muda nada, né? A vida real é o que conta. Sei disso por que algumas pessoas não acabam bem. O que era inusitado se tornou espanto. – Do que está falando, garoto? Não, espere. Não me diga que… Após longos anos esquecida em um túmulo não mais reverenciado, a intuição recebeu o valor devido. Estar ia ela diante de uma tragédia dirigida por um sádico que queria ser pai? Jonas, a fim de reacender a chama da paixão sitiada por presunçosas prioridades, seria capaz de jogar tão sujo? A partir das questões suscitadas, sua alma não mais dividia o mesmo espaço que seu corpo naquela calçada. O ceticismo cedera lugar à dúvida, e a dúvida, a certeza. – Minha vizinha morreu sozinha. – O fedelho enfatizou a última palavra.– Um treco no coração, acho. Isso não é bom. Não é um final feliz. – Garoto, você é muito jovem para falar em “finais”. Pense em jogar bola ou coisa que o valha, mas deixe de ser irritantemente adulto, por favor! A brincadeira acaba aqui. Vá e não volte, é o que peço ainda gentil. 37