Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | Page 41

LiteraLivre nº 4 – Pela inspeção visual, pude constatar vinte e três lesões incisivas, provocadas por um instrumento perfurocortante de único gume, para ser mais exata, uma faca de cozinha comum. Esse é meu laudo oficial preliminar. – Obrigado por facilitar meu trabalho. Agora toda população da cidade se tornou suspeita. – Não me agradeça, Heitor, apenas dê o fora. Tenho um homem nu à minha espera. – Pensei ter ouvido que não se encontrava em um bom dia. – Um equívoco de minha parte? Sinta-se lisonjeado! – Vai sonhando, doutora! A sala retomou o silêncio e odores próprios assim que Heitor se retirou de mãos vazias, porém sem ressentimentos. **** O dia exaustivo pedia uma ducha e cama, entretanto confrontar Jonas e suas suplicas caladas deixou de ser a única opção, não por desapego, mas por obrigação. Menino bem-vestido, cabelos bem cortados e a fragilidade estampada no corpo encolhido em um processo fetal penoso, levou-a de volta à calçada. – Vejo encrenca aqui? Uma pergunta dispensando apresentações. – O que você tem a ver com isso? Me deixe em paz, droga! – o garoto resmungou, emburrado, enquanto se recompunha. – Moleque, tentadora a sugestão. Penso no meu filme preferido, então facilite as coisas. Você fica bem, eu fico bem. Esse é o papo. O que acha? – Se é seu filme preferido, a senhora sabe como termina, então qual é a graça? A médica legista refletiu sobre o preceito erguido pelo pirralho atrevido. 36