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LiteraLivre nº 4
– Pela inspeção visual, pude constatar vinte e três lesões incisivas,
provocadas por um instrumento perfurocortante de único gume, para ser mais
exata, uma faca de cozinha comum. Esse é meu laudo oficial preliminar.
– Obrigado por facilitar meu trabalho. Agora toda população da cidade se
tornou suspeita.
– Não me agradeça, Heitor, apenas dê o fora. Tenho um homem nu à
minha espera.
– Pensei ter ouvido que não se encontrava em um bom dia.
– Um equívoco de minha parte? Sinta-se lisonjeado!
– Vai sonhando, doutora!
A sala retomou o silêncio e odores próprios assim que Heitor se retirou
de mãos vazias, porém sem ressentimentos.
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O dia exaustivo pedia uma ducha e cama, entretanto confrontar Jonas e
suas suplicas caladas deixou de ser a única opção, não por desapego, mas por
obrigação.
Menino
bem-vestido,
cabelos
bem
cortados
e
a
fragilidade
estampada no corpo encolhido em um processo fetal penoso, levou-a de volta
à calçada.
– Vejo encrenca aqui?
Uma pergunta dispensando apresentações.
– O que você tem a ver com isso? Me deixe em paz, droga! – o garoto
resmungou, emburrado, enquanto se recompunha.
– Moleque, tentadora a sugestão. Penso no meu filme preferido, então
facilite as coisas. Você fica bem, eu fico bem. Esse é o papo. O que acha?
– Se é seu filme preferido, a senhora sabe como termina, então qual é a
graça?
A médica legista refletiu sobre o preceito erguido pelo pirralho atrevido.
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