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LiteraLivre nº 4
inferir culpas ou sustentar desculpas. Prisão ou Paris? Uma piada obscena aos
olhos de quem ocupa o banco dos réus.
– Como estamos indo, doutora? – Heitor indagou, assim que entrou sem
se fazer notar.
Não houve abalo ou susto. O inspetor de polícia, apesar de apresentar
pulsação e respirar, despertara a curiosidade da médica legista graças à
natureza inarredável e o divertido olhar estrábico que lhe eternizava a
jovialidade.
– Deixe-me trabalhar em paz. Hoje não estou em um bom dia – Alessia
comentou ao se virar, novamente, para o corpo que a esperava.
– Só hoje? Que interessante.
– Não comece!
Heitor foi advertido. Em uma das mãos da mulher, um bisturi amolado.
Um pequeno instrumento capaz de fazer grandes estragos.
Alguns instantes de tensão forjada se passaram até que os extremos
voltaram a dividir o mesmo espaço como se fossem gêmeos univitelinos.
– Tudo bem. Tudo na mais perfeita ordem. Eu me rendo se você me
disser o que temos aí. Minha proposta não é razoável?
Alessia ensaiou ponderação, contudo não resistiu ao chamado de seu
humor instável.
– Justo. Temos aqui um homem morto.
Heitor esforçou-se para manter a seriedade exigida pela troça que os
mantinha em sintonia.
– Desconhecia seu senso de humor, doutora. Se meu salário não
dependesse de uma resposta objetiva, seria capaz de rir até o próximo inverno
no inferno.
Atenta aos movimentos impacientes do inspetor, a médica cedeu,
embora não tivesse muita coisa a dizer em um espaço de tempo tão curto.
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