Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | Page 37

LiteraLivre nº 4 Mary deixou de lado a garrafa vazia e voltou-se novamente para o pacote, terminando-o e lambendo seu interior de forma a aproveitar cada microscópico cristal. Revigorada, mas ainda sedenta, levantou-se e viu sobre o armário, inúmeros recipientes de temperos em pequenas garrafinhas; pimenta, shoyo, molho de alho, azeite, entre outros. Ela Bebeu cada um deles, tremendo, arrepiando-se e contorcendo-se por completa. Sentia o estômago borbulhar e queimar, e via a pele da barriga se esticar como se pressionada de dentro para fora. Dor, contudo, o prazer delirante que sentia durante aquela peculiar degustação, lhe aprazia de forma quase sexual. Enquanto bebia o último vidro, wasaby, e mastigava um pote de canelas em pau, a luz da cozinha foi ficando mais e mais forte, iluminando mais ainda o pequeno cômodo, até que a lâmpada finalmente explodiu em vários cacos de vidro, deixando claro o lugar apenas pela fraca luz da geladeira aberta. Ao lado da pia, e olhando fixamente para Mary no chão, um cão negro camuflava-se sentado entre a falta de luz. Sem nenhuma expressão e olhando fixamente para seus olhos, não movia um músculo sequer. Reconhecia-se a vida ali dentro pelas recorrentes piscadas que dava. Se não fosse isso, o mesmo poderia facilmente passar-se por uma escultura muito bem feita. Mary diminuía a mastigação observando-o, e sorria de maneira bizarra e ao mesmo tempo quase infantil para o animal. A moça percorreu todo o seu corpo com o olhar; suas patas fortes, seus músculos desenhados, seu focinho protuberante, seu olhar avermelhado, suas orelhas pontudas. Saindo da escuridão, uma mão afagou a cabeça do cão que permaneceu inerte. Em meio à penumbra, apenas a fumaça de um cigarro aceso era baforada. O cheiro de carne podre empesteava o ambiente. Ela não podia vê- lo, mas sentia uma imensa alegria ante sua presença. De imediato seus olhos ficaram completamente brancos e sem vida e ela levantou remexendo a cabeça e tremendo o corpo. Contorcendo-se, as juntas 32