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LiteraLivre nº 4
Mary deixou de lado a garrafa vazia e voltou-se novamente para o pacote,
terminando-o e lambendo seu interior de forma a aproveitar cada microscópico
cristal. Revigorada, mas ainda sedenta, levantou-se e viu sobre o armário,
inúmeros recipientes de temperos em pequenas garrafinhas; pimenta, shoyo,
molho de alho, azeite, entre outros. Ela Bebeu cada um deles, tremendo,
arrepiando-se e contorcendo-se por completa. Sentia o estômago borbulhar e
queimar, e via a pele da barriga se esticar como se pressionada de dentro para
fora. Dor, contudo, o prazer delirante que sentia durante aquela peculiar
degustação, lhe aprazia de forma quase sexual.
Enquanto bebia o último vidro, wasaby, e mastigava um pote de canelas
em pau, a luz da cozinha foi ficando mais e mais forte, iluminando mais ainda
o pequeno cômodo, até que a lâmpada finalmente explodiu em vários cacos de
vidro, deixando claro o lugar apenas pela fraca luz da geladeira aberta. Ao lado
da pia, e olhando fixamente para Mary no chão, um cão negro camuflava-se
sentado entre a falta de luz. Sem nenhuma expressão e olhando fixamente
para seus olhos, não movia um músculo sequer. Reconhecia-se a vida ali
dentro pelas recorrentes piscadas que dava. Se não fosse isso, o mesmo
poderia facilmente passar-se por uma escultura muito bem feita. Mary
diminuía a mastigação observando-o, e sorria de maneira bizarra e ao mesmo
tempo quase infantil para o animal. A moça percorreu todo o seu corpo com o
olhar; suas patas fortes, seus músculos desenhados, seu focinho protuberante,
seu olhar avermelhado, suas orelhas pontudas.
Saindo da escuridão, uma mão afagou a cabeça do cão que permaneceu
inerte. Em meio à penumbra, apenas a fumaça de um cigarro aceso era
baforada. O cheiro de carne podre empesteava o ambiente. Ela não podia vê-
lo, mas sentia uma imensa alegria ante sua presença.
De imediato seus olhos ficaram completamente brancos e sem vida e ela
levantou remexendo a cabeça e tremendo o corpo. Contorcendo-se, as juntas
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