Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | Page 38

LiteraLivre nº 4 pareciam deslocar-se, ela levantou e caminhou até a pia. Prostrada, com violência seus joelhos dobraram a poucos centímetros do cão, ainda sem expressão nenhuma. Ela sentia a respiração quente do mesmo, quando quase encostou o nariz no focinho do animal. Mary abriu os braços em reverência e baixou a cabeça como numa prece. Ela sussurrava algo em latim, com uma voz, ora esganiçada e aguda, ora gutural e medonha. Da sombra, se viu sair à mesma mão, afagando a cabeça de Mary, assim como fizera com o cão há pouco. Eram alaranjadas com unhas pontudas e sujas, bolhas na pele e pus esverdeado escorrendo, como uma vítima de incêndio ou algo parecido. A garota beijou a mesma, ainda com olhos brancos e sorriso emocionado. Era como se pedisse uma benção. Olhou para dentro da escuridão e pode ver o ponto vermelho do cigarro, mais forte e mais fraco, a cada nova tragada. O ser que a abençoava recolheu a mão e pegou a dela, fazendo-a sentar em seu colo como uma criança mimada em busca de conforto. O cão virava a cabeça e a acompanhava vagarosamente, com o cenho sério, sem nem ao menos piscar. Ela entrou na pen umbra e sumiu junto com a brasa do cigarro que já não queimava mais. Devagar, o cão marchou um par de passos e seguiu rumo ao vazio. O silêncio imperou como se há muito tempo o mundo não testemunhasse um único som; nem o zumbido de mosca, nem o vento lá fora. Absolutamente nada além da música feita pelo próprio silêncio pairava no ar. O telefone tocou alto rasgando o silêncio e estremecendo as almas. O primeiro toque veio alto e irritante, o segundo, longo e agudo. O terceiro foi interrompido no meio. 33