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LiteraLivre nº 4
pareciam deslocar-se, ela levantou e caminhou até a pia. Prostrada, com
violência seus joelhos dobraram a poucos centímetros do cão, ainda sem
expressão nenhuma. Ela sentia a respiração quente do mesmo, quando quase
encostou o nariz no focinho do animal. Mary abriu os braços em reverência e
baixou a cabeça como numa prece. Ela sussurrava algo em latim, com uma
voz, ora esganiçada e aguda, ora gutural e medonha. Da sombra, se viu sair à
mesma mão, afagando a cabeça de Mary, assim como fizera com o cão há
pouco. Eram alaranjadas com unhas pontudas e sujas, bolhas na pele e pus
esverdeado escorrendo, como uma vítima de incêndio ou algo parecido. A
garota beijou a mesma, ainda com olhos brancos e sorriso emocionado. Era
como se pedisse uma benção.
Olhou para dentro da escuridão e pode ver o ponto vermelho do cigarro,
mais forte e mais fraco, a cada nova tragada. O ser que a abençoava recolheu
a mão e pegou a dela, fazendo-a sentar em seu colo como uma criança
mimada em busca de conforto. O cão virava a cabeça e a acompanhava
vagarosamente, com o cenho sério, sem nem ao menos piscar. Ela entrou na
pen umbra e sumiu junto com a brasa do cigarro que já não queimava mais.
Devagar, o cão marchou um par de passos e seguiu rumo ao vazio. O silêncio
imperou como se há muito tempo o mundo não testemunhasse um único som;
nem o zumbido de mosca, nem o vento lá fora. Absolutamente nada além da
música feita pelo próprio silêncio pairava no ar. O telefone tocou alto rasgando
o silêncio e estremecendo as almas. O primeiro toque veio alto e irritante, o
segundo, longo e agudo. O terceiro foi interrompido no meio.
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