Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | Seite 36
LiteraLivre nº 4
Desejos
Vitor Luiz Leite
Rio de Janeiro/RJ
Mary abriu a geladeira; a caixinha de suco estava vazia e na de leite
restavam apenas algumas gotas. A comida chinesa já começava a feder na
prateleira de cima e o pão mofava na inferior. Fechou a porta e virou-se em
direção a pia, lavando o rosto e bebendo fartas goladas diretamente da
torneira. Olhou seu reflexo deformando-se no alumínio irregular da bica, e viu
por trás de si uma sombra negra que crescia e tomava todo o lugar.
A garota se virou assustada e ofegante, mas a sede permanecia
independente de quanto tivesse bebido. Mais uma vez ela abriu a geladeira à
procura de algo que pudesse saciá-la, ao passo que as dores aumentavam no
ventre. Sem nada que lhe enchesse os olhos girou e então abriu o armário,
encontrando um pacote de sal fino. Sorriu singelamente. Sentou-se com no
chão e o abriu com dentadas no plástico. Puxando a gaveta inteira, que se
estatelou no piso, pegou uma colher qualquer. Seu semblante era de regozijo e
prazer, a cada colherada cheia que levava do pacote a boca, mastigando com
desejo e alegria. O rosto avermelhava-se e os olhos umedeciam, mas o sorriso
permanecia enquanto as veias no pescoço dilatavam-se e as mãos e pés
inchavam. Ainda no chão, ela viu sob a pia uma garrafa de vinagre. Deixou de
lado o pacote, ao menos por um momento, esticou-se e alcançou a garrafa.
Com um olhar de desejo, espremeu o líquido garganta adentro, bebendo
todo o litro como se água fosse. O rosto se avermelhava mais ainda e as veias
esverdeadas e muito vivas, desenhavam a pele branca. A expressão de dor e
prazer absoluto misturava-se e confundia-se. Pequenas feridas já começavam
a aparecer nos cantos da boca, causadas pela mastigação contínua do sal.
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