Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | Page 115

LiteraLivre nº 4 sempre que abertos; sentava na cadeira e passava o resto do dia lutando para se ajeitar numa posição confortável, num eterno descompasso entre seu corpo e o mundo que a abrigava. Às vezes, ela olhava na minha direção, até mesmo soltava meia dúzia de palavras, que em meus ouvidos produziam senão ecos de uma realidade que eu podia apenas entrever. Mas ela não me via ali, seus olhos me atravessavam, enxergavam algo que estava muito distante: um mundo de noites eternas e de areia fria e úmida. Eu tinha medo de perguntar o que ela via lá, e desconfiava que ela jamais me responderia. Certa vez, após as palavras certas terem sido pronunciadas na ordem errada, ela virou os olhos na minha direção, e daquela vez ela me viu. Foi breve demais para que eu entendesse o que estava acontecendo, mas longo o suficiente para que eu me perdesse nele. Seus olhos eram escuros e úmidos. Voltei para casa com a certeza de ter deixado algo para trás. Só agora percebo que eu todo fui deixado para trás… mas o verdadeiro problema estava no que ela havia levado adiante. Foi quando acordei no dia seguinte, os olhos dela ainda espreitando nos fundos de minha mente, que o mundo começou a desaparecer. Ao pisar na calçada para além da porta de minha casa, vi que toda vegetação havia desaparecido: a grama, as árvores, até mesmo as mais convincentes flores de plástico não estavam mais ali, mas ninguém parecia se importar ou sequer perceber que isso estava acontecendo. Retornei ao prédio em que deixei uma parte de mim, mas a dona do olhar que me assaltou os sonhos já não estava mais ali, e eu nunca mais voltei a vê-la. Ainda me pergunto para onde ela teria ido e para onde teria levado meu mundo… e por que logo eu tinha sido deixado para trás. No dia seguinte, cada vez mais pedaços do mundo desapareceram e apenas eu percebia suas ausências. Sumiram as estrelas do céu, deixando para trás uma redoma negra e um tanto líquida; desapareceram as águas dos 110