Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | Page 116

LiteraLivre nº 4 mares, e em seu lugar ficaram montes de sal e peixes mortos; nunca mais vi gaivotas. Despertei, e meus móveis não estavam mais ali, corri para fora e o céu não era mais azul, sua cor roubada dali por mãos que eram hábeis o suficiente para arrancá-lo do céu, mas não para voltar a cobri-lo com qualquer coisa que não fosse o cinza estático e rarefeito que agora eu via. Corri para o primeiro que encontrei e gritei “O céu não é mais azul! Alguém roubou o céu”… mas ele só me ignorou, como se eu fosse um louco, nem sequer olhou para cima para testar minhas palavras. O restante das cores sumiram logo em seguida: desapareceu o vermelho dos tijolos de minha casa, o azul de minhas canetas, o castanho dos cabelos em meu reflexo, sumiram até mesmo aquelas cores esquisitas que você só vê nos sonhos. Sumiram então meus sonhos, as divagações pela rua, os últimos pensamentos desconexos antes de pegar no sono. Por último, quando nada mais restava do cenário, sumiram as pessoas. Não gradativamente, uma a uma, mas todas juntas, num único suspiro; me abandonaram ali quando eu não estava olhando, buscando formas na areia molhada em que enterrava meus pés. E quando eu achava que nada mais me poderia ser tirado, sumiu minha forma de ver o mundo, desapareceu o sentido que eu conseguia enxergar no horizonte. Em minhas ideias mesmo o conceito de Eu já começava a naufragar, diluir-se em meio a todo o resto. Do mundo ao qual um dia eu pertenci só me restam essas palavras, que tão cedo terminei de escrever e que já começam a desaparecer nas areias úmidas em que as escrevi. 111