Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | Página 114

LiteraLivre nº 4 O Olhar que Roubou o Mundo Kleber Kurowsky Santa Maria/RS Aqui, do outro lado, posso escrever. Não que eu tenha algum tipo de gosto particular pelas palavras, mas porque não há muito mais que eu possa fazer além de anotar meus pensamentos na areia cinza e úmida sob meus pés, e que dá a todo infinito que me cerca um ar pantanoso e doente. Já faz um tempo que estou aqui, sozinho, mas o ambiente não me é mais familiar por isso: é tão silencioso, vazio e ameaçador quanto foi nos primeiros dias. As palavras se desmancham na areia, varridas por um vento que minha pele ignora, e, pouco a pouco, se tornam inidentificáveis, meros espectros daquilo que sonhei que fossem, nada diferentes do mundo que me cerca ou mesmo de mim próprio. Eu vou continuar a andar, deixar as palavras para trás, em sua ruína rítmica e constante, até que nada mais reste delas. E se um dia alguém passar pelo ponto no espaço que agora deixo para trás, não encontrará nada além da areia que certa vez marcou as solas de meus pés, e que estará, então, desprovida de qualquer sinal humano. Mas o mundo já foi diferente, e talvez, em algum lugar, ainda seja; talvez eu apenas tenha sido deixado para trás. E agora me pergunto o que eu estaria fazendo caso o mundo não me tivesse sido roubado, arrancado de mim logo agora que começava a entendê-lo… ou pelo menos era isso que eu achava. Naquela época, antes de morrer o mundo, eu a via todo dia, subindo as escadas do edifício, coberta por roupas que alternavam de corte ou de tecido, mas nunca de cor: preto, sempre preto. Sua boca, de lábios cobertos por batom roxo ou cinza, revelavam um mundo que pulsava em sua vermelhid