LiteraLivre n º 4
despedaçava, e logo me deixaria exposto. Isto não me causava repúdio, e não conseguia entender que no fundo existia em mim um sentimento de ansiedade mesclado com uma ponta de euforia. Talvez o extraordinário dos fatos me tentasse, ou quem sabe houvesse ali uma inexplicável força que comandava minhas vontades e me dirigia para outros prazeres tidos até então em minha mente como abomináveis. Eu estava quase feliz. E aquela estátua no meio do corredor? Ainda não a havia notado. Tratava-se de um corpo humano com cabeça de porco, e que de vez em quando se voltava para alguém e dava um sorriso. Mas era uma estátua, e as pessoas tratavam-na como tal, não lhe retribuindo o sorriso, nem o olhar quase apaixonado.
Então me lembrei de que era domingo. Sim, domingo e eu vinha do trabalho. Era isto. O fato deixou-me imensamente perturbado, e jurei nunca mais trabalhar num domingo. Como poderia ter trabalhado se aos domingos a empresa não funcionava?
Agora eu precisava sair dali e me libertar de tudo o que me pudesse fazer lembrar tal sacrilégio. Não era necessário esmiuçar questões religiosas. Domingo é domingo e basta. Por que deixar a casa e se meter com pássaros sanguinários, crianças que vomitam horas seguidas, cães que usam relógios caros, anões entalados em catracas, e tudo aquilo que me rodeava?
Resolvi descer no próximo ponto, e não me interessava onde fosse; eu tinha de romper com aquele mundo estranho, que não me metia medo, e, entretanto não me pertencia, nem eu a ele.
Fiz sinal de parada e aliviado vi que o ônibus logo estacionou abrindo a porta ruidosamente. Virei para agradecer ao motorista e tive um sobressalto. Um macaco usando quepe e gravata estava ao volante e me acenou. Desci às pressas e tropecei, quase indo ao chão. Incrível, era o ponto mais próximo de minha casa. A chuva havia cessado. Não ousei virar-me novamente, mas ouvi o macaco rindo seu riso debochado de macaco. Talvez já me tivesse conduzido outras vezes.
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