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LiteraLivre nº 4
que embarcasse o casal de velhos que havia descido umas cinco vezes
pela janela, entrando sempre na parada seguinte.
O homem ferido no dedo havia fechado todas as janelas e o
pássaro tentava encontrar um meio de entrar batendo o bico contra os
vidros.
De repente uma mulher saiu do seu lugar com uma criancinha no
colo. O pequeno vomitava em jatos que atingiam os para brisas. A
mulher o virava para cá e para lá, e várias sombrinhas foram abertas.
Um soldado que usava esplêndido elmo dourado se defendia com um
belíssimo escudo, me fitando com ar de compaixão, pois eu nada tinha
com que me defender além de um simples e amarrotado jornal.
Seguia a marcha cada vez mais célere, com a criança vomitando
seguidamente. Já havia uma pequena camada que escorria lentamente
pelo piso, fazendo as pessoas escorregar, precipitando-se umas sobre as
outras, sempre murmurando coisas ininteligíveis que eu supunha tratar-
se de insultos e admoestações tal a ferocidade de seus semblantes e a
maneira como gesticulavam; como se quisessem agarrar uns aos outros
pela garganta e apertar até à morte. Alguns exibiam garras afiadas,
outros; dedos de aço, e havia até alguns que não possuíam mãos, tendo
adaptado em seu lugar ganchos pontiagudos, ou pequenas lanças.
Não me sentia assustado, mas incrédulo. Eu vinha do trabalho e
não podia ter errado tanto ao me meter na condução. Não a ponto de
encontrar uma galeria de tipos tão fantásticos. Mas eu estava ali. Eu via
e sentia, e não era sonho.
Uma mulher de rosto muito corado me empurrou para o meio do
banco e sentou - se ao meu lado. Fiquei entre ela e o cachorro que não
parava de olhar para o relógio, e sacudir a cabeça. Notei que a mulher
me encarava insistentemente e olhei para ela, sentindo uma pesada
respiração, e pior, seu hálito horrível e sufocante. Seu sorriso bestial me
causou uma pontada na espinha, não me assustando, entretanto, e sim
me pondo desejoso de que ela saísse dali ou parasse de me fitar,
lamentando que não fizesse nem uma coisa nem outra.
Ela não se protegia e sua cabeça estava encharcada pelo vômito do
bebê.
Uma chuva caiu repentinamente e a ave partiu com um grasnado
que me pareceu a promessa de retorno algum dia. Houve uma tênue
sensação de alívio, mesmo que a criança continuasse vomitando e
tivéssemos de nos proteger continuamente.
Eu já tinha o jornal ensopado, e este, pouco a pouco se
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