Revista LiteraLivre Revista LiteraLivre 4ª edição | Page 102

LiteraLivre nº 4 O Domingo dos Erros Gê Marquish Foi difícil, mas consegui um assento no ônibus. Até então não me preocupara em observar as pessoas, porém tornou-se impossível não notar as aparências e atitudes singulares. Uma mulher falava sem parar exibindo sua dentadura desigual e cheia de falhas. Num dado momento um dente desprendeu-se de sua boca caindo na cabeça de um homem sentado à sua frente. Este por sorte usava chapéu. O calor era intenso e um senhor abriu o tampão do teto do ônibus. Puro azar; uma ave surgiu e bicou - lhe com tamanha voracidade que arrancou um pedaço do seu polegar, causando desespero ao homem que berrava mostrando o dedo mutilado sem que as pessoas lhe dessem atenção. Um anão ficou entalado na catraca e o cobrador nada fazia para liberta - lo, enquanto as pessoas que pretendiam passar apenas murmuravam coisas que não pude compreender. Então notei que as orelhas do cobrador eram enormes e lhe caiam pelas faces dando-lhe um aspecto pavoroso. E ninguém havia notado, ou faziam questão de dissimular, não encarando tão inverossímil personagem. O pássaro voltou a pôr a cabeça pelo tampão ainda aberto, e de seu bico caíram algumas gotas de sangue. Alguém fechou o respiradouro com um baque. A certa altura um casal de velhos entrou pela porta da frente e no ponto seguinte desceu pela janela. Só então notei que a meu lado estava sentado um enorme cão negro. Ele usava um relógio de ouro, e a todo momento o consultava, depois sacudindo a cabeça afirmativamente. Perdi a noção do tempo, notando, entretanto, que a viagem se prolongava demasiadamente. Eu fazia o caminho de volta do trabalho e conhecia bem o trajeto, porém não reconhecia aquelas ruas estreitas e sinuosas nem seus prédios sombrios de paredes emboloradas com as janelas todas iguais, mostrando pessoas de fisionomias tristes, que nos acenavam melancolicamente. O ônibus se tornava mais e mais veloz e agora já não parava para 97