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LiteraLivre nº 4
O Domingo dos Erros
Gê Marquish
Foi difícil, mas consegui um assento no ônibus. Até então não me
preocupara em observar as pessoas, porém tornou-se impossível não
notar as aparências e atitudes singulares.
Uma mulher falava sem parar exibindo sua dentadura desigual e
cheia de falhas. Num dado momento um dente desprendeu-se de sua
boca caindo na cabeça de um homem sentado à sua frente. Este por
sorte usava chapéu. O calor era intenso e um senhor abriu o tampão do
teto do ônibus. Puro azar; uma ave surgiu e bicou - lhe com tamanha
voracidade que arrancou um pedaço do seu polegar, causando desespero
ao homem que berrava mostrando o dedo mutilado sem que as pessoas
lhe dessem atenção.
Um anão ficou entalado na catraca e o cobrador nada fazia para
liberta - lo, enquanto as pessoas que pretendiam passar apenas
murmuravam coisas que não pude compreender. Então notei que as
orelhas do cobrador eram enormes e lhe caiam pelas faces dando-lhe um
aspecto pavoroso. E ninguém havia notado, ou faziam questão de
dissimular, não encarando tão inverossímil personagem.
O pássaro voltou a pôr a cabeça pelo tampão ainda aberto, e de
seu bico caíram algumas gotas de sangue. Alguém fechou o respiradouro
com um baque.
A certa altura um casal de velhos entrou pela porta da frente e no
ponto seguinte desceu pela janela.
Só então notei que a meu lado estava sentado um enorme cão
negro. Ele usava um relógio de ouro, e a todo momento o consultava,
depois sacudindo a cabeça afirmativamente.
Perdi a noção do tempo, notando, entretanto, que a viagem se
prolongava demasiadamente. Eu fazia o caminho de volta do trabalho e
conhecia bem o trajeto, porém não reconhecia aquelas ruas estreitas e
sinuosas nem seus prédios sombrios de paredes emboloradas com as
janelas todas iguais, mostrando pessoas de fisionomias tristes, que nos
acenavam melancolicamente.
O ônibus se tornava mais e mais veloz e agora já não parava para
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