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LiteraLivre nº 4
O Estrangeiro
Regina Ruth Rincon Caires
Campinas/SP
Escada de madeira, avariada. Puída como tudo o que a vista alcança dali.
Cassiano, acomodado num degrau, tronco dobrado sobre os joelhos, esfrega o
dedo do pé na saliência de um prego pronto a se soltar.
Na cabecinha de onze anos, é um vaivém de imagens que analista
nenhum conseguiria ordenar. No peito, é só amargura. Sente-se como um
alienígena, pior que isso, um terrestre desfocado. Não tem nada a ver com
tudo aquilo. A cidade, o mar, a vida da favela... Tudo lhe é terrivelmente
estranho! Nem mesmo estes dez meses o deixaram mais familiarizado. Não se
afina, é sempre um vendido!
Bem que avisara o pai... Não é vida para eles! Como poderia uma família da
roça, rude, simplória, acostumar-se numa cidade daquele tamanho?! Pode até
ser uma cidade linda, maravilhosa, cheia de modernices, mas os problemas
que lhes traz a tornam uma cidade madrasta. Que saudade do seu cantinho!
Chega a lhe doer no peito!
Sente uma pena tão grande do pai! Está cada dia mais magro, consumido,
desesperado. É muito mais difícil do que imaginara! Com a graça de Deus, a
mãe havia conseguido colocação na casa de uma dona, lá na cidade. Cuida da
roupa e da arrumação da casa. Sai ainda escuro, e volta já à noitinha. Sempre
cansada, desgastada.
A irmã, no viço dos seus dezesseis anos, não consegue trabalho. Cuida do
barraco, displicentemente, e dorme quase o dia todo. Quando escurece, veste
a mesma roupa surrada de todas as noites, e sai. Sempre tem uma amiga para
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