Revista LiteraLivre edição especial - 03 | Page 109
LiteraLivre Edição Especial nº 03 - 2019
papos. A jovem sobrinha não fora ao cortejo por vergonha do tio, e nem era tão
dada com ele. Um dia, há tempo, ele chutou a bunda dela por brincadeira e
imaginem onde ela foi parar.
Ainda não acabara o enterro e alguns, os mais ansiosos, já almejavam uma
nova distração, algo diferente para a região. Por que o singular, o diferente,
incomoda? Somos todos singulares, mas a noção de alteridade passa longe.
Ao fechar-se o caixão um vulto infundiu-se junto ao corpo inerte: "se estive
preso engaiolado a vida toda de que me serve a liberdade agora que sou velho? É
que nem aquela velha lei humana, a dos Sexagenários, que em 1871 o Império
libertou os escravos acima dos sessenta anos livrando os fazendeiros da carga
desses velhos, colocados ao relento, se chegassem vivos até aí!! Piada de mau
gosto, isso sim! Comigo a coisa é diferente.
– Não quero morrer sozinho e abandonado, vou com o Pé Grande – decidiu
o pássaro. Ninguém suspeitou. De repente, a janela do caixão, semifechada
devido a curta envergadura dos pés começou a tremer. Abriram assustados e
nada. De novo e de novo! Jogaram o caixão no buraco e todos correram
desesperados. O pássaro bicava os pés do amigo, que sempre teve excessiva
cócega e aquele nunca soube, e se remexia. Era o último agrado, a despedida.
Deitou-se com as asas bem acomodadas, no bolso do paletó e esperou, esperou.
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