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LiteraLivre Edição Especial nº 03 - 2019
estudiosos.
Sua vida social e religiosa era limitada, pois lá se vedavam a entrada de
pessoas descalças nos recintos, ainda mais um senhor descalço. Artífice algum
acertava as medidas de uma botina ou de um chinelo que fosse. Às vezes,
arrastava um chinelão por onde ia, expondo o calcanhar ao léu, mas o problema
foi mesmo a unha encravada! Quem se prontificava a desencravá-la? Até o nome
do vilarejo lhe cabia. Por ironia: Bota Grande. “Para a unha encravada o bom é
jogar álcool temperado com ervas e sal grosso, ou, pinga! Mas qual?!? A minha
esposa jogara fora a garrafa e, provavelmente, meu pássaro Azulão escapulira
por suas mãos atrevidas também”, matutava Pé Grande.
Alguns jovens o chamavam de "o patinador". O vizinho espanhol o chamara
numa ocasião para matar, à patada, uma cobra em sua cozinha. Ele não foi. “Que
se salvem as cobras, oras bolas!” Pé Grande tinha outra identidade: Agenor. E um
sobrenome bem propício: Sola Quente. As trilhas de saúvas fugiam dele, mas
quantas delas foram dizimadas por uma só pisada, no meio do mato ou na
estrada, e olhe que ele tinha boa visão! Porém, lembre-se, cara leitora e leitor,
ele não era um gigante, apesar dos pés.
Agora no final, o cortejo fúnebre aumentava. Todos se espremiam para
espiar sua expressão, quer dizer, a posição dos ditos cujos – rijos, brancos, com
meias rasgadas, sobressalentes para fora do caixão. Uma fotógrafa destemida
pediu à família para fotografar os pés sem as meias – Pé Grande não tivera
tempo de cerzi-las – A tal fotógrafa queria uma foto exclusiva. A família pequena:
esposa, irmão, irmã, uma sobrinha, um sobrinho e o velho Azulão (que voltara
para despedir-se, tinha-o desde a mocidade) não deram permissão; aí já era
expor demais o pobre homem.
Algumas crianças choravam vendo alguns adultos chorando sobre o caixão.
Alguns jovens choravam, pois sentiriam falta da única atração da Vila;
velhos
já se entristeciam pelo vácuo no
banco sob as mangueiras da pracinha, onde ele era o protagonista dos bate-
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