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LiteraLivre Edição Especial nº 03 - 2019 O Pé Grande e o Azulão Luzia Stocco Piracicaba/SP – O Pé Grande morreu! O Pé Grande morreu! – gritava uma garotinha correndo na rua. Ele, o morto, o Pé Grande, não podia acreditar que haviam aberto a portinhola da gaiola e, seu azulão, tão amado, escapara. Mas de que adiantava lembrar-se disso agora?! O cortejo prosseguia. Carroças, charretes, muitos a pé, seguiam em direção ao centro da Vila Bota Grande. Ninguém ia a sua frente. Pela primeira vez todos estavam atrás dele – até a esposa do prefeitinho Batias. Pezão era o primeiro – prioridade de morto – atentou ele. E, além de soltarem seu pássaro, jogaram fora sua única garrafa de pinga. Agora, continuava com sua meia furada, tão velha. Pediu, na Hora H, que o preparassem para o enterro com a mesma meia, a única que lhe cabia. Pé Grande, filho de coronel falido, também falido, temido pela fama dos pés. No passado, até arqueólogos renomados confundiram-se com o dito achado de marcas ressecadas dos seus passos no solo. Então fizeram um ágil pedido para concessão daquele sítio arqueológico seguido de frustração dos [104]