Revista LiteraLivre edição especial - 03 | Page 110
LiteraLivre Edição Especial nº 03 - 2019
Entre quatro paredes
Marione Cristina Richter
Venâncio Aires/RS
Sempre que ouço falar de preconceito contra a comunidade LGBTQ+ fico
me questionando onde está a lógica de se ter preconceito contra alguém que não
seja declaradamente hétero. Não que algum preconceito tenha lógica, mas ser
hétero ou não tem a ver com a intimidade da pessoa. O que ainda acho pior é
que agora toda esta intimidade, que deveria ser particular, se transforma a cada
dia em uma letra a mais, em um alfabeto já embaralhado, que é abreviado com
um “+”. Me desculpem a todos vocês, mas eu vou continuar julgando as pessoas
pelo seu caráter.
Mas, e se formos julgar as pessoas, todas elas, pelo que fazem em sua
intimidade, e isto não condizer com aquilo que cada um acha, e só acha, o que é
o correto a se fazer, eu me pergunto, quantos héteros se escapariam ilesos da
fogueira?
Pensando nisso imaginei a seguinte situação:
Um grande empresário, superexigente com relação à qualidade de seus
funcionários, se dedica pessoalmente a avaliar os currículos dos candidatos, que
junto com seus currículos devem preencher uma ficha cadastral onde em
determinado ponto devem declarar suas preferências sexuais. Só neste quesito,
quem não for hétero, já é desclassificado.
E começa a avaliação.
Primeiro currículo: Andréia Mendes, 32 anos, formada em Harvard, com
doutorado, experiências em grandes empresas multinacionais, casada, um filho,
blá, blá, blá, blá, orientação sexual: hétero, preferência sexual: sexo oral.
Primeiro silêncio, seguido de consternação e após a explosão:
— Onde já se viu, bem capaz que vou contratar uma boqueteira para
trabalhar para mim. Não tem respeito pelo filho.
Lixeira, próximo currículo:
[107]