Revista LiteraLivre 1ª Edição | Página 69

LiteraLivre nº 1 O talento está no sangue Helder Guastti-João Neiva/ES Todas as manhãs o ritual se repetia. Levantava da cama, tomava o café da manhã e ia afinar as cordas do violão. Espalhadas por todo o ambiente da diminuta casa, memórias de um tempo de grandiosidade e reconhecimento há muito esquecidos. Por vezes sentia que aquelas fotos estavam ali apenas para assombrá-lo, fazendo-o recordar de um tempo que nunca mais voltará. Toda a glória e sucesso que obteve percorrendo diversos estados junto a seus companheiros de banda, hoje são surreais. A única realização que tem é quando consegue receber cinquenta reais com suas apresentações ao ar livre... Violão afinado. Chegou o momento de sair em busca do pão de cada dia. A verdade é que não fazia isso pelo dinheiro. Até porque, diariamente, a quantia que conseguia adquirir fazendo suas apresentações em praças e calçadas, era mínima, só dava mesmo para comprar o essencial para sua sobrevivência. Pedro Júnior foi integrante de uma banda de rock nos anos oitenta. Uma daquelas bandas que surgem em garagem, com amigos reunidos, cigarros acesos e cervejas geladas. Num golpe de sorte, Pedro e seus amigos de banda foram descobertos por uma grande gravadora. Lançaram vários discos, saíram em turnê, tinham videoclipes sendo exibidos constantemente na televisão, matérias em jornais e revistas e, para aqueles jovens, o que mais importava: muitas mulheres a seus pés. Era incrível, nem Pedro ou seus companheiros poderiam ser vistos como grandes galãs, mas o sucesso era algo mágico. As mulheres pareciam se derreter a seus pés. Bastava subir ao palco e tocar um acorde de guitarra para elas ficarem ensandecidas e aparecerem depois dos shows nos bastidores. Bons tempos... Colocou o violão dentro da capa, o maço de cigarros dentro do jeans rasgado, o tênis de lona bastante gasto com alguns buracos e a sola meio frouxa, trancou a porta e saiu. Sentiu o vento gelado cortar sua face. Acendeu um cigarro, a fim de desanuviar seus pensamentos e memórias e aquecer seu interior. Andou alguns metros, indiferente a paisagem e pessoas a seu redor. O tempo passou, a dificuldade tornou-se uma constante em sua vida, o dinheiro acabou, a fama e o sucesso se extinguiram, mas a marra e o porte de artista haviam permanecido. Pedro tinha um ar blasé, adotava uma postura de superioridade. Algumas vezes, enquanto performava sobre um caixote ou sentado no meio fio parecia, aos olhos do público, que ele estava fazendo um favor a eles, que deviam agradecê-lo imensamente por estar ali, cantando e tocando para seus ouvidos inferiores, reles mortais. Talvez esta atitude seja uma das razões que fazem com que Pedro não receba muitas ofertas enquanto toca. Mas, honestamente, ele não se importa. É claro que os transeuntes, que não passam de criaturas banais, não conseguiriam compreender sua arte. Sua música era para poucos. Era obra divina. Após meia hora sentado num caixote de verduras vazio que estava largado na entrada de um mercado, Pedro, de cabeça baixa dedilhando algumas notas em seu 64