LiteraLivre nº 1
violão, sentiu que estava sendo observado. Levantou os olhos levemente e notou uma
presença austera em frente a si. Empertigou-se no caixote, adotando uma postura ereta e
ares de soberano das artes, e começou a tocar freneticamente. Seus dedos deslizavam
pelas cordas, produzindo notas e sons elaborados, seu corpo inteiro parecia mover-se em
consonância àquela melodia. Em sua mente o universo ia tomando forma e cores, criando
vida e exuberância. De olhos fechados, sentindo a música preencher seu vazio interior,
Pedro, por um momento, sentiu sua espinha gelar.
Parou em meio a um acorde complexo. Abriu os olhos. A sombra da figura
agigantou-se sobre si. Notou que a pessoa (era um homem ou uma mulher?) havia se
aproximado mais dele e estava com a mão estendida.
— Companheiro; não sei se você é de fora ou veio do interior, mas, aqui na cidade,
quem está se apresentando é que recebe uma oferta de quem está assistindo. Portanto,
como eu estava aqui expondo minha alma artística e deixando todo meu talento
mergulhar em sua audição banal, você é quem deve me pagar. Não adianta estender
essa mão, a não ser que queira me dar os parabéns por ser um artista tão maravilhoso.
A criatura permaneceu estática, com a mão estendida.
— Escuta aqui, você não vai colaborar não? Tudo bem. Já era de se esperar que
um sujeito tão estranho como você não saberia reconhecer um artista quando o
encontrasse. Agora, vai ficar fazendo hora com a minha cara? Não tenho tempo para lidar
com estupidez, saia da minha frente! – levantou-se abruptamente do caixote e acertou um
tapa na mão da figura com sua mão direita.
Assim que tocou na mão daquela criatura, que até o momento não havia
conseguido decifrar se era um homem ou uma mulher, Pedro Júnior sentiu seu corpo se
retesar. Um frio subiu pela espinhal dorsal, um calafrio se fez notar em seu ventre, os
pelos do braço e nuca se eriçaram. A visão escureceu.
— Mas que merda está acontecendo aqui? – balançava a cabeça feito um pêndulo,
mas nada conseguia visualizar.
Passados alguns minutos de muita tremedeira e angústia, vislumbrou, com o canto
esquerdo de seus olhos, um objeto. Aproximou-se relutante e sorrateiramente, mas,
conforme se aproximava, notou a familiaridade do objeto e avançou a passos largos. Era
seu violão.
Assim que pôs as mãos no violão o ambiente pareceu ganhar vida.
Refletores apontavam luzes sobre seu corpo. Notou que estava sobre um palco de
piso escuro. Colocando as mãos por sobre os olhos, vislumbrou o grande público que o
observava. E, como o narcisista que era, começou a tocar as melodias e músicas mais
complexas que conhecia, passando os dedos por toda a estrutura do violão, emitindo
sons excepcionais, balançando seu corpo envolto naquele rito de prazer e egocentrismo.
O