Revista LiteraLivre 1ª Edição | Page 68

LiteraLivre n º 1
Pouco a pouco, eles sacavam suas pistolas e atiravam, ou então cortavam o pescoço dos tripulantes como quem fatia um pedaço de pão. Outro clarão de luz revelou os contornos de alguém. Um trovão ressoou pelos ares. O capitão inimigo agora estava no convés e o pobre embarcação espanhola afundava aos poucos. O homem andou na direção do primeiro imediato, com passos firmes e portando um longo sorriso. Estendeu a mão. O corpo do capitão Ávila jazia ao lado de Juan, sem vida, afogado em uma poça de sangue. Juan logo compreendeu o chamado e o aceitou de prontidão. Seguiu o sombrio capitão em direção ao navio holandês, enquanto Esperanza dava seus últimos suspiros e abraçava a morte.
O navio invasor era uma embarcação enorme, um monstro marinho de velas negras e rasgadas. Já no tombadilho, Juan foi recepcionado por alguns homens e um deles lhe entregou um escovão. Aturdido, sentindo-se humilhado e rebaixado, pensou por alguns segundos em reclamar. Em vão. O carrasco, portando um longo chicote, já o havia atingindo e sob as gargalhadas espalhafatosas o ordenava que efetuasse a limpeza do convés. Era o início de um pesadelo que duraria um século, mas que seria sentido como uma eternidade. Fugir da morte para viver anos ainda como marujo talvez não fosse a melhor das escolhas, mas o mar era a sua casa, a sua vida e verdadeira paixão. Apressadamente ele começou a esfregar o chão, porém se deteve quando um par de enormes e desgastadas botas pretas interrompeu o seu caminho. O capitão dirigiu-se ao ex-primeiro imediato com um ar solene e, ao mesmo tempo, um tom zombeteiro em sua voz, típico daqueles que recepcionam os viajantes que adentram no circulo mais abissal o inferno:
- Seja bem-vindo ao Holandês Voador!
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