Revista LiteraLivre 1ª Edição | Page 67

LiteraLivre nº 1 Uma rajada de vento violenta e cortante inflou as velas, derrubou os objetos e desequilibrou alguns tripulantes perdidos. A caravela que antes reinava soberana transformou-se um reles brinquedo a balançar nas águas negras. As ondas atacavam o casco incessantemente, como uma turba medieval feroz a caçar uma bruxa a fim de joga- la na fogueira. Um redemoinho se abriu diante dos olhos atemorizados dos marujos, como uma colossal garganta demoníaca pronta para engolir a todos. A rapidez com que as águas gradualmente se moviam tornavam-no um pesadelo aquático. O primeiro imediato, Juan, deu ordens aos berros com a intenção de organizar os tripulantes e evitar que a embarcação navegasse rumo ao seu fim. Em um misto de coragem e fé, disse àqueles homens que não aceitam a finitude e não abandonassem o navio até o seu último suspiro. Logo, o capitão Ávila saiu às pressas de sua cabine, mas não havia nada que poderia fazer frente ao imenso poder da Natureza. Não eram nada mais do que pobres ratos à deriva no mar, o fim era inexorável. Tudo se tornou um breu. Nada mais poderia ser visto, nem mesmo em que lugar cada um se situava na caravela. Alguns artilheiros tentavam subir do deque ao convés, em vão. Não havia contra o quê lutar, o inimigo não era de carne e osso e nem estava viajando em um navio. De repente, ouviu-se um baque. O barco inteiro estremeceu. Vá rios marujos caíram nas águas profundas e negras. Alguns conseguiram se manter presos nas cordas, no mastro e nos corrimões. Mais e mais marujos gritavam horrorizados. Provavelmente, haviam batido em um recife. Ouvia-se claramente a água preenchendo as partes inferiores da embarcação e agora nada lhes restava além afundar lentamente em direção ao baú de Davy Jones, como era natural dos homens ao mencionarem o fundo do mar. Eis que um clarão surgiu nas trevas. Foi possível, em um breve momento, distinguir algumas formas e objetos. Sucessivos clarões se iniciaram, até que se pôde avistar um navio holandês, um fluyt, navegando à distância, sem bandeira e sem cores, vindo em direção à Esperanza. Eram piratas, sem dúvidas. Estavam atracando ao lado da caravela. Lançaram cordas e pranchas de madeira. Seus marinheiros, homens robustos de todos os tipos e etnias, invadiram a embarcação em um piscar de olhos. Não havia em seus rostos nenhuma feição afável, nenhuma gota misericórdia em seus olhos. Eles eram a morte em pessoa. Aqueles eram os verdadeiros lobos do mar, predadores das águas. 62