LiteraLivre nº 1
Uma rajada de vento violenta e cortante inflou as velas, derrubou os objetos e
desequilibrou alguns tripulantes perdidos. A caravela que antes reinava soberana
transformou-se um reles brinquedo a balançar nas águas negras. As ondas atacavam o
casco incessantemente, como uma turba medieval feroz a caçar uma bruxa a fim de joga-
la na fogueira. Um redemoinho se abriu diante dos olhos atemorizados dos marujos, como
uma colossal garganta demoníaca pronta para engolir a todos. A rapidez com que as
águas gradualmente se moviam tornavam-no um pesadelo aquático.
O primeiro imediato, Juan, deu ordens aos berros com a intenção de organizar os
tripulantes e evitar que a embarcação navegasse rumo ao seu fim. Em um misto de
coragem e fé, disse àqueles homens que não aceitam a finitude e não abandonassem o
navio até o seu último suspiro. Logo, o capitão Ávila saiu às pressas de sua cabine, mas
não havia nada que poderia fazer frente ao imenso poder da Natureza. Não eram nada
mais do que pobres ratos à deriva no mar, o fim era inexorável.
Tudo se tornou um breu. Nada mais poderia ser visto, nem mesmo em que lugar cada
um se situava na caravela. Alguns artilheiros tentavam subir do deque ao convés, em vão.
Não havia contra o quê lutar, o inimigo não era de carne e osso e nem estava viajando em
um navio. De repente, ouviu-se um baque. O barco inteiro estremeceu. Vá rios marujos
caíram nas águas profundas e negras. Alguns conseguiram se manter presos nas cordas,
no mastro e nos corrimões. Mais e mais marujos gritavam horrorizados. Provavelmente,
haviam batido em um recife. Ouvia-se claramente a água preenchendo as partes
inferiores da embarcação e agora nada lhes restava além afundar lentamente em direção
ao baú de Davy Jones, como era natural dos homens ao mencionarem o fundo do mar.
Eis que um clarão surgiu nas trevas. Foi possível, em um breve momento, distinguir
algumas formas e objetos. Sucessivos clarões se iniciaram, até que se pôde avistar um
navio holandês, um fluyt, navegando à distância, sem bandeira e sem cores, vindo em
direção à Esperanza. Eram piratas, sem dúvidas. Estavam atracando ao lado da caravela.
Lançaram cordas e pranchas de madeira. Seus marinheiros, homens robustos de todos
os tipos e etnias, invadiram a embarcação em um piscar de olhos. Não havia em seus
rostos nenhuma feição afável, nenhuma gota misericórdia em seus olhos. Eles eram a
morte em pessoa. Aqueles eram os verdadeiros lobos do mar, predadores das águas.
62