Revista LiteraLivre 1ª Edição | Seite 52

LiteraLivre n º 1

Marcos e Henrique

Thássio Ferreira Rio de Janeiro / RJ
Conheciam-se profundamente. Embora ainda estivessem em idades em que não se conhece profundamente nem a si próprio, que dirá a outra pessoa: um deles com vinte e nove recém completados, no auge do que o outro, de vinte e quatro, dizia ser a " melhor fase do homem, quando o vigor, ainda pulsante, ganha experiência ".
Embora também estivessem há pouco tempo juntos, um nada além de três anos, o que já é quase não tão pouco, mas ainda não tanto. Dois desses anos dividindo o apartamento antigo, que testemunhava a construção daquela vida em comum com a sonolência de quem já vira assassinatos e suicídios afetivos e desistira de tentar compreender a humanidade.
Entretanto, entretanto, apesar de todos os entretantos, conheciam-se profundamente. Marcos levantou-se, os pés descalços, e foi até o quarto no fim do corredor, cuidando para não esbarrar em nenhuma das pilhas de livros que aguardavam resignadas pelo chão que ele instalasse a prateleira comprada há semanas, também ela ao chão, ao lado dos livros. Contornou a cama e diminuiu o volume do som que fazia vibrar quase imperceptivelmente o tampo da mesinha de cabeceira – enquanto calhou lembrar-se da infância, olhando para o móvel: dos raros momentos de calmaria, quando sua mãe o colocava para dormir e sempre deixava um copo d ' água ali ao alcance, na " mesinha de cabeceira ", como ela dizia, nunca no " criado-mudo ". Voltou ao escritório.
Henrique não ouviu o volume ser diminuído. Ouviu, sim, a voz de Marcos, contrariada mas ainda carinhosa, roufenha, uma entonação só dele, sempre, sempre: Henrique, abaixa um pouco o Caetano, por favor, estou tentando trabalhar. Mesmo com toda a intimidade, ele sempre usava por favor e obrigado. E todas as outras fórmulas de gentileza. Nas mais pequenas coisas. Costumava dizer que falta de educação, ainda que por pressa, ou pela própria intimidade, ou por qualquer razão, era imperdoável. Gostava de cultivar a amabilidade com devoção quase religiosa. Além de imperdoável, achava a descortesia mortal: " Quem não diz por favor está a um passo de mandar tomar no cu o outro que só pediu licença. Na rua pode acabar rendendo um tiro. Em casa, um bilhete de despedida ". Henrique fechou a torneira e parou de se banhar por um instante.
Marcos não ouviu o fluxo de água interromper-se, o silêncio ao fim das gotas e do zumbido do aquecedor. Ouviu um suspiro e a voz do outro em certa mágoa, certa irritação: É rápido, Marcos, você sabe o quanto eu gosto de ouvir música enquanto me apronto, e que eu já vou sair. O relógio do computador indicava dez e dez, agora dez e onze. Parou de escrever. Acendeu um cigarro.
Henrique não ouviu os passos e a janela de esquadrias velhas e rangentes se abrindo à amendoeira e seus macaquinhos acostumados ao ruído de alumínio deslizando, olhares e fumaça de cigarro – Marcos tinha o hábito de fumar sempre à janela, desde quando morava com os pais e não queria deixar que o cheiro enjoativo se impregnasse
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