LiteraLivre nº 1
impressão que havia passado. Ficou esperando. Esqueceu os poemas de Pessoa. Na
sua cabeça só havia espaço para aquela divindade que nem conhecia ainda.
A noite chegou. Vicente ficou esperando. Não sentia frio, não sentia fome. Estava
amando. O tempo foi passando e a ansiedade crescendo. Ela haveria de sair, para
guardar o carro ou para ir embora. Afinal havia entrado na casa da tia somente com a
roupa do corpo. E que roupa! Um vestido curto, tecido macio que realçava coxas, peitos e
bumbum. Ela teria que voltar. Mesmo que o carro fosse passar a noite na rua, teria que
pegar alguma coisa nele. Talvez uma escova de dente, roupa de dormir. Ele ia esperar o
tempo que fosse preciso.
E esperou. Sofreu. Já eram quase vinte e duas horas, quando a porta da casa em
frente se abriu. Dela saiu a morena. Para Vicente, ainda mais linda do que havia entrado,
apesar de estar com a mesma roupa, os mesmos cabelos soltos, o mesmo sorriso. Ele
levantou-se da cadeira. Ia falar. Precisava falar, tinha que procurar alguma conversa. Mais
uma vez, nada saiu. Estava travado, não conseguiu abrir a boca. Ela olhou para ele,
balançou a cabeça de modo afirmativo, cumprimento típico de alguém que quer ser
simpático com um desconhecido qualquer, abriu a porta do carro, pegou uma maleta
vermelha, fechou o carro, atravessou a rua e entrou na casa da tia.
Mesmo sabendo que a moça não sairia mais naquela noite, Vicente sentou e ficou
ali por mais um tempo. Olhava para o carro e imaginava dentro dele com a sua dona. Já
estava apaixonado até pelo carro dela. Não pela marca ou modelo, mesmo porque na sua
garagem havia um muito mais caro e mais confortáv el. Era pelo fato de ser dela.
Finalmente, Vicente entrou. Precisava tomar banho, comer alguma coisa. Foi até a
cozinha e encontrou uma garrafa de vinho. Há tempo não bebia, mas naquela noite
precisava beber. Abriu a garrafa e bebeu no gargalho, quase metade do vinho. Sentiu
tontura e alegria. Foi até o banheiro, ficou um tempo embaixo do chuveiro, nem se lavou
direito, pois se sentia como um adolescente apaixonado. Enquanto enxugava, olhou no
espelho embaçado. Viu outro homem, alguém que não conhecia, mas gostou.
Não conseguiu dormir. Aquela mulher estava ali o tempo todo. Nunca vira noite tão
grande. Levantou às quatro da manhã. Tinha medo de a moça ir embora muito cedo, se
isso acontecesse, ele poderia não vê-la nunca mais. Não poderia correr esse risco. Às
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