Revista LiteraLivre 1ª Edição | Page 104

LiteraLivre nº 1 impressão que havia passado. Ficou esperando. Esqueceu os poemas de Pessoa. Na sua cabeça só havia espaço para aquela divindade que nem conhecia ainda. A noite chegou. Vicente ficou esperando. Não sentia frio, não sentia fome. Estava amando. O tempo foi passando e a ansiedade crescendo. Ela haveria de sair, para guardar o carro ou para ir embora. Afinal havia entrado na casa da tia somente com a roupa do corpo. E que roupa! Um vestido curto, tecido macio que realçava coxas, peitos e bumbum. Ela teria que voltar. Mesmo que o carro fosse passar a noite na rua, teria que pegar alguma coisa nele. Talvez uma escova de dente, roupa de dormir. Ele ia esperar o tempo que fosse preciso. E esperou. Sofreu. Já eram quase vinte e duas horas, quando a porta da casa em frente se abriu. Dela saiu a morena. Para Vicente, ainda mais linda do que havia entrado, apesar de estar com a mesma roupa, os mesmos cabelos soltos, o mesmo sorriso. Ele levantou-se da cadeira. Ia falar. Precisava falar, tinha que procurar alguma conversa. Mais uma vez, nada saiu. Estava travado, não conseguiu abrir a boca. Ela olhou para ele, balançou a cabeça de modo afirmativo, cumprimento típico de alguém que quer ser simpático com um desconhecido qualquer, abriu a porta do carro, pegou uma maleta vermelha, fechou o carro, atravessou a rua e entrou na casa da tia. Mesmo sabendo que a moça não sairia mais naquela noite, Vicente sentou e ficou ali por mais um tempo. Olhava para o carro e imaginava dentro dele com a sua dona. Já estava apaixonado até pelo carro dela. Não pela marca ou modelo, mesmo porque na sua garagem havia um muito mais caro e mais confortáv el. Era pelo fato de ser dela. Finalmente, Vicente entrou. Precisava tomar banho, comer alguma coisa. Foi até a cozinha e encontrou uma garrafa de vinho. Há tempo não bebia, mas naquela noite precisava beber. Abriu a garrafa e bebeu no gargalho, quase metade do vinho. Sentiu tontura e alegria. Foi até o banheiro, ficou um tempo embaixo do chuveiro, nem se lavou direito, pois se sentia como um adolescente apaixonado. Enquanto enxugava, olhou no espelho embaçado. Viu outro homem, alguém que não conhecia, mas gostou. Não conseguiu dormir. Aquela mulher estava ali o tempo todo. Nunca vira noite tão grande. Levantou às quatro da manhã. Tinha medo de a moça ir embora muito cedo, se isso acontecesse, ele poderia não vê-la nunca mais. Não poderia correr esse risco. Às 99