Revista LiteraLivre 1ª Edição | Página 103

LiteraLivre nº 1 que era para ser um alívio gerava mais dor, mais sofrimento. Como um alcoólatra que diz que nunca mais vai beber, dizia que não faria mais sexo sem amor, porém, dias depois, tudo se repetia. Naquele fim de tarde, Vicente chegou à sua casa e, como fazia todos os dias, tirou os sapatos, abriu portas e janelas e sentou na mesma cadeira que ficava na varanda. Antes de sentar, passou pela sala e pegou um livro na estante. Dessa vez, “O Guardador de Rebanhos”, de Fernando Pessoa. Assim que sentou, abriu em uma página qualquer, leu um poema e começou a refletir sobre o mesmo. O “eu lírico” parecia tão triste quanto ele. Não dar para dizer há quantos minutos Vicente pensava nos versos de Pessoa, talvez quinze ou vinte, quando um carro foi estacionado exatamente em frente à sua varanda. Ele esqueceu o poema e ficou olhando para o carro cujos vidros eram escuros. Impossível saber quem estava dentro. Segundos depois, saiu uma mulher. Vicente ficou paralisado, mudo. Nunca vira uma mulher tão linda. Tinha aproximadamente 35 anos. Era de uma beleza que nem o poeta mais inspirado do mundo conseguiria descrevê-la, mesmo porque não há recursos de linguagem para tal descrição. Caminhou em direção a Vicente e disse: - Boa tarde! Estou procurando por uma tia que mora nessa rua. O nome dela é Irani. Vicente não conseguiu falar. Estava paralisado. Simplesmente apontou a casa da frente. A mulher sorriu, falou “obrigada” e caminhou em direção à casa. Enquanto ela atravessava a rua, Vicente saiu do seu estado de choque e ficou olhando. Até o seu jeito de caminhar era especial, o seu corpo parecia o de uma morena que fazia propaganda de uma marca de cerveja na televisão. Vicente estava apaixonado, acreditando no amor à primeira vista. Porém, muito envergonhado por ter ficado naquele estado. Será que ela havia percebido? É evidente que percebeu! O que estaria pensando dele? Poderia ter sido simpático, ter passado uma boa impressão, pois pressentia que havia encontrado o amor da sua vida. A mulher entrou na casa da tia. Vicente ficou sentado onde estava; pensando que uma hora ela haveria de sair. Seria a oportunidade de puxar conversa. Corrigir a má 98