LiteraLivre nº 1
Uma Estranha Leveza
Adnaldo Guimarães de Azevedo
Ibiassucê/BA
Vicente sentiu uma rajada de tristeza, quando olhou no canto direito da tela do
monitor e viu que já eram dezessete horas e doze minutos daquela sexta-feira. Qualquer
pessoa neste mundo ficaria alegre em saber que concluiu o dia de trabalho e que voltaria
para casa. Mas Vicente não é qualquer pessoa. É um homem enigmático, estranho. O
que dizer de um homem que ver no trabalho a única fuga da realidade? Ele chega até a
dizer que só é feliz trabalhando.
Como fazia todos os dias, Vicente deu uma conferida nos arquivos, arrumou a sua
mesa, desligou o computador, fechou a porta da sua pequena sala no setor de
contabilidade da prefeitura e saiu. Caminhou em direção à sua casa. Quinze minutos de
caminhada. Deixava o carro na garagem, pois pensava que aquela caminhada lhe fazia
bem. Na verdade, não utilizava o carro porque gostava de atrasar o máximo a chegada
em casa. Não sabia explicar o motivo, mas a cada passo que dava em direção à sua casa
a tristeza aumentava. Não sabia o que lhe prendia àquele lugar. A esposa havia ido
embora há quatro anos. Não mandou ir, mas, também, não pediu para ficar. Ficou mal uns
dias, pois gostava muito da filha que preferiu ir com a mãe. Não pode dizer que a mulher
não fez falta, já que pelo menos da casa ela cuidava bem. Logo acostumou e sentiu até
um pouco de alívio. Não ia mais precisar ouvir todos os dias que ele só pensava em
trabalho, que era frio, que não amava ninguém, que ia acabar ficando sozinho. Ficou
mesmo.
Fisicamente, Vicente tinha muita saúde. Com 48 anos, não podia ficar sem sexo. O
que não era difícil. Tinha as suas amizades coloridas, como costumava dizer. Quando
esses contatos falhavam, contratava as meninas que ofereciam prazeres delivery. Mas
depois do sexo, sentia uma espécie de ressaca, um arrependimento, uma angústia
inexplicável. Não tinha nada que sentir aquele remorso, afinal, era solteiro, mas sentia. O
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