Revista LiteraLivre 1ª Edição | Page 102

LiteraLivre nº 1 Uma Estranha Leveza Adnaldo Guimarães de Azevedo Ibiassucê/BA Vicente sentiu uma rajada de tristeza, quando olhou no canto direito da tela do monitor e viu que já eram dezessete horas e doze minutos daquela sexta-feira. Qualquer pessoa neste mundo ficaria alegre em saber que concluiu o dia de trabalho e que voltaria para casa. Mas Vicente não é qualquer pessoa. É um homem enigmático, estranho. O que dizer de um homem que ver no trabalho a única fuga da realidade? Ele chega até a dizer que só é feliz trabalhando. Como fazia todos os dias, Vicente deu uma conferida nos arquivos, arrumou a sua mesa, desligou o computador, fechou a porta da sua pequena sala no setor de contabilidade da prefeitura e saiu. Caminhou em direção à sua casa. Quinze minutos de caminhada. Deixava o carro na garagem, pois pensava que aquela caminhada lhe fazia bem. Na verdade, não utilizava o carro porque gostava de atrasar o máximo a chegada em casa. Não sabia explicar o motivo, mas a cada passo que dava em direção à sua casa a tristeza aumentava. Não sabia o que lhe prendia àquele lugar. A esposa havia ido embora há quatro anos. Não mandou ir, mas, também, não pediu para ficar. Ficou mal uns dias, pois gostava muito da filha que preferiu ir com a mãe. Não pode dizer que a mulher não fez falta, já que pelo menos da casa ela cuidava bem. Logo acostumou e sentiu até um pouco de alívio. Não ia mais precisar ouvir todos os dias que ele só pensava em trabalho, que era frio, que não amava ninguém, que ia acabar ficando sozinho. Ficou mesmo. Fisicamente, Vicente tinha muita saúde. Com 48 anos, não podia ficar sem sexo. O que não era difícil. Tinha as suas amizades coloridas, como costumava dizer. Quando esses contatos falhavam, contratava as meninas que ofereciam prazeres delivery. Mas depois do sexo, sentia uma espécie de ressaca, um arrependimento, uma angústia inexplicável. Não tinha nada que sentir aquele remorso, afinal, era solteiro, mas sentia. O 97