LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
Ítalo Dantas
Caicó/RN
Eu Esqueci
Era tão estranho estar voltando para casa nesse momento. Era
definitivamente uma das sensações mais esquisitas em que seu corpo fora posto
a sentir. Uma parte de si se sentia incrivelmente conectado com aquele lugar, na
realidade sentia como se fosse uma parte que estava faltando de si, como um
pedaço do seu corpo que tinha sido roubado. E era ali que estava enterrado.
Talvez estivesse, pensou.
E não era um bom sentimento. Tocou sua barriga, sentindo-a mover, seu
coração parecia um pedaço de gelo e sua cabeça doía. A coisa mais esquisita de
toda aquela situação era que a casa não tinha nada demais fisicamente, era uma
simples casa moderna com um portão branco enorme contrastando com o verde
saturado das paredes, uma cerca elétrica percorria todo o muro e na área era
possível ver os móveis dos seus pais.
Estava em casa novamente. A sensação de pertencimento era inegável. Suas
pernas moveram sozinha, caminhando para o lado direito da casa, onde ficava a
porta de entrada principal, sua mão soltou a alça da mala que carregava e
ergueu-se pressionando o botão da campainha, seu coração disparou, ouvindo
aos poucos o crescente barulho que percorria toda a residência. Enquanto
esperava a porta ser aberta, virou de costas e semicerrou os olhos contemplando
o ambiente que vivera há alguns anos.
Nilo suspirou. Sua ansiedade começava a formar uma bola na sua barriga ao
mesmo tempo que sua mente viajava tornando aquele momento de segundos em
horas. Tinha voltado finalmente naquela cidade depois de alguns anos fora
fazendo seu mestrado. Tinha voltado em julho, quando acontecia uma festa local
muito famosa na cidade, bem valorizada pelos habitantes.
Nilo era um escritor em ascensão. Seus livros não eram os melhores,
reconhecia, mas sua escrita era bem elogiada pelas pessoas, desde quando
conseguia se lembrar tinha o costume de escrever e através do incrível apoio do
seus maravilhosos pais, tinha crescido e conseguido se tornar o que sempre
quisera ser. Nem todo mundo tinha aquela sorte.
Virou-se de volta no momento que o chato barulho de abrir o portão tocou
seus ouvidos, sua mãe sorriu mirando-lhe de cima a baixa e sabia que ela estava
vendo o quão magro o menino estava. Abraçou-se com a mulher e ambos
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