Revista LiteraLivre 19ª edição | Page 95

LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020 entraram, encaram o gato preto da família correr porta afora. Ao cruzar a porta, era como se uma saraivada de lembranças atingisse seu peito, fazendo-lhe estancar por segundos, fechar os olhos e se recompor para sua mãe não notar e criar um estardalhaço em cima daquilo. O menino não tinha uma memória de verdade, à medida que o tempo avançava era como se tivesse gradualmente passando a esquecer mais e mais coisas, confundia números, esquecia uma coisa que alguém acabara de lhe falar e seu maior ódio era quando trocava os objetos de lugares, guardando o celular na geladeira e teclando um copo de leite. Todo mundo pode dizer que seria normal esquecer daquela forma quiçá uma atenção maior às situações seria o remédio perfeito para se livrar daquilo. Mas sabia que não. Definitivamente tinha algo a mais naquilo tudo. Ninguém se esquecia de toda uma parte da sua vida do dia pra noite. Sua barriga doeu novamente, sentindo uma pontada no coração e levando sua mão automaticamente até lá. Sua mãe o dirigiu para o seu quarto, um meio-sorriso brotou estampando seu rosto enquanto seria seus olhos lacrimejarem. Estava terrivelmente emocional naquele dia e não entendia o porquê. Parado na porta, seus olhos percorreram o guarda-roupa preto colocado no canto direito, contrapondo-se a sua cama com lençol vermelho, seu quarto estava completamente arrumando. Era noite quando deitou em sua cama caindo com a cabeça no travesseiro, suspirando e encarando o teto. Queria conseguir lembrar de tudo que viveu dentro daquele quarto, e queria que aquelas lembranças não fosse nada demais, seria mais reconfortante e simples de aguentar tudo. Fechou os olhos e, como em questão de segundos, tudo desapareceu e estava finalmente dormindo. O gélido toque de metal rasgou por completo seu peito, aquelas espécies de garras arrancaram delicadamente cada órgão da sua barriga, passando-os entre seus dedos de metal, como se tivesse brincando e se divertindo com aquilo. Sua visão era turva, seus olhos faziam uma força gigantesca para ficar encarando aquilo que jazia acocado sobre si. Conseguia enxergar os ossos proeminentes em seu quadril, suas costelas saltavam do peito e era impossível não enxergar os músculos do seu corpo. Os olhos de Nilo encararam profundamente os dois poços luminosos e infinitos que brilhavam onde deveriam estar seus olhos. A criatura continuava a brincar com seus olhos, passando suas garras de metal, agora ensanguentadas, pelo seu rosto, deixando-lhe marcado com uma trilha de sangue que seguia da sua testa ao seu maxilar. Não era uma paralisia do sono, conseguia discernir por completo. Era totalmente diferente de tudo que já sentira, não aguentava mais. Precisava acordar. Pulou para fora do sonho tão rápido quanto entrara, mas tinha voltado [92]