Revista LiteraLivre 19ª edição | Page 92

LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020 arranhar a língua ao ponto de não sentir mais a existência da mesma na boca (talvez para os funcionários falarem menos e produzirem mais), tudo isso regado ao mais finíssimo ritmo misantrópico dos teclados uníssonos. Até que um som rompe a rotina: ― CHEGA! ― diz Leonardo batendo na mesa e afrouxando a gravata. Um monte de zumbis despertaram do sono profundo das tumbas com olhos arregalados e arriscaram, pela primeira vez, a olhar para o mundo além do próprio cubículo. Leonardo corre em direção à janela e estilhaços de vidro disparam no ar. O prelúdio da liberdade pinga no tapete cinza amorfo, um vivaz carmim. Asas rompem das escápulas e ele começa a plainar do ar, tal qual um piloto experiente, conversou com o Cristo Redentor e tocou com o indicador no cume da Torre Eiffel. Chegou perto do sol e foi além da beira do universo; todos os outros, voltaram para os respectivos túmulos. [89]