LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
arranhar a língua ao ponto de não sentir mais a existência da mesma na boca
(talvez para os funcionários falarem menos e produzirem mais), tudo isso regado
ao mais finíssimo ritmo misantrópico dos teclados uníssonos.
Até que um som rompe a rotina:
― CHEGA! ― diz Leonardo batendo na mesa e afrouxando a gravata.
Um monte de zumbis despertaram do sono profundo das tumbas com olhos
arregalados e arriscaram, pela primeira vez, a olhar para o mundo além do
próprio cubículo.
Leonardo corre em direção à janela e estilhaços de vidro disparam no ar. O
prelúdio da liberdade pinga no tapete cinza amorfo, um vivaz carmim. Asas
rompem das escápulas e ele começa a plainar do ar, tal qual um piloto
experiente, conversou com o Cristo Redentor e tocou com o indicador no cume
da Torre Eiffel.
Chegou perto do sol e foi além da beira do universo; todos os outros,
voltaram para os respectivos túmulos.
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