LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
Iris Franco
Diadema/SP
O sonho de Dédalo
As veleidades eram maiores do que o homem, ganhavam asas e saiam por
aí, observando o mundo e rascunhando tudo no papel. Até o esboço tomar a
forma de algo bonito de sentir.
Leonardo sabia manipular o sangue até o limite da fricção com as veias:
desenhar. Naquele instante, no qual os ouvidos auscultavam por intermédio de
um lápis o som do espírito demarcando o papel, tudo parava: nada mais tinha
importância e o corpo transcendia a transcendência.
Na corda bamba da vida, aquele cujos pés são incisivos consegue o intento
de alegrar o público. Sempre temos uma plateia para agradar em nossa jornada,
portanto, ninguém pode julgar as atitudes de Leonardo, o qual, apesar dos
pesares expostos, fez Direito para agradar a família.
Direito sim, porque dá dinheiro. O único e simples motivo. Por asteísmo
cósmico, o papel que outrora trouxe tanta alegria, agora era uma lâmina
assassina da imaginação. Internamente, a sina de Leonardo era representada
pelo quadro Guernica: gritos ecoando em preto e branco.
Acordava todo dia às 05:00, bebia o café (sem escovar os dentes porque se
não, a comida fica com gosto de pasta), tomava banho (e escovava os dentes no
chuveiro para economizar água), vestia um terno bonito e alinhado, subia no
ônibus, depois metrô, pegava o cartão da empresa, girava a catraca, entrava no
elevador, dava um bom dia (que não daria para a maioria das pessoas de lá),
sentava no cubículo dele (às vezes nem almoçava, por causa dos prazos), ficava
umas dez horas no serviço (com uma esticada de perna para fazer as
necessidades naturais conjuntamente com aquele velho assédio moral entre uma
petição e outra) e mais tarde fazia todo o caminho inverso.
Todo dia, a mesma coisa. A coisa mesma, todo dia.
Era o rei de um castelo construído por pilhas e mais pilhas de processos
envoltos por uma linguagem irritante de um latim que todo mundo fingia
entender. Em vez de vinho a fortaleza servia café, o qual o único intuito era
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