Revista LiteraLivre 19ª edição | Página 220

LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020 — Ele já estava morto por dentro. — Comentou Sophie com Manoel ao fitar apreensiva a situação. Naquele momento o soldado virou-se para a mãe do homem que apenas fitava o filho sem vida com olhos fundos e sem o menor esboço de emoção. Como se estivesse num torpor emocional. — Ao que indica as pesquisas do Dr.Wilson Mattos atesta que a toxina torna inativa partes essenciais da consciência neutralizando qualquer desejo e pensamento crítico, mesmo o desejo vital ao anular mesmo os instintos de sobrevivência, eles estão totalmente entregues as intempéries dessa gente. Eles se tornaram pouco mais que mortos-vivos subservientes a mão negra do governo. Aquela droga não criava empatia, mas apatia. O soldado partiu deixando a mãe fitando o vazio ante o corpo sem vida do filho, como se fosse um corpo oco, destituído de alma e a menor vontade própria. Sophie aproximou-se e a fitou sem notar a mulher esboçar a menor reação. — Santo Deus! Poderíamos fazer o que quiser com ela que não teríamos a menor resistência da parte dela. Como uma máquina as mulheres bonitas da cidade eram pouco mais que bonecas infláveis que se entregava a qualquer soldado que solicitasse sexo fácil com elas. Mesmo mulheres casadas tinham relações sexuais diante de seus maridos o qual observavam como se olhassem uma bela paisagem. A dissociação da emoção parecia afasta-los do senso de realidade e qualquer reação como se estivessem num estado de sono ainda que sensorialmente ativo. Eles tinham o estado de atenção diluído enquanto caminhavam como num transe pouco mais que vegetal. Sophie parou então diante da mulher e a fitou dentro dos olhos para inquiri-la sobre o incidente que parecia mais do que um vazamento acidental, mas um experimento social perverso. — Onde tem início a fonte que alimenta a cidade? A mulher a olhou nos olhos, mas como se ela fosse transparente parecia olhar através dela, o vazio, quando após um minuto de silêncio a mulher respondeu de modo robótico. — No alto do monte onde está a instalação militar. [217]