LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
Rogerio Luz
Rio de Janeiro / RJ
Migrante
I.
Aos que buscam refúgio, digo que nasci
de uma tarde de exílio, da árvore sem memória
de uma ilha porque
me isola na dualidade cúmplice o que amo.
Ao sol agrada a pedra cercada pelas águas
o marulho do vento na onda
os cabelos do pensamento
que alguma aurora desvelou.
Na tarde das árvores, na tarde expirei
sufocado pela fumaça de navios sem porto
um sol poente mergulhado em jarras vermelhas
uma pedra sem corpo.
II.
Descubro a meu redor
caminhos estranhos: um traço no litoral desconhecido
cada passo um desconcerto de mundo
cada gesto mãos sem adeus
o rio liso sob colinas de espuma.
Em que lembranças se escondem
o degrau quebrado
a coluna da varanda interrompida
a porta abandonada
a janela por onde não se fecha mais o vento?
Minha voz faz companhia ao esquecido
[190]