LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
Inicialmente, o intervalo entre uma automutilação e outra era maior. Mas,
com o passar do tempo, o seu efeito não durava como antes e precisa ser
renovado. Assim, dia após dia, Luiza sentia a sua pele se abrir e a sua alma
clamar cada vez mais. Suas coxas, seus braços, suas nádegas e sua barriga
estavam tatuados pelo abraço devastador daquela navalha: uma amiga
controversa à quem ela se condicionou a contar seus segredos.
Em qualquer estação, suas roupas eram longas, buscando esconder as
marcas daquela violência contra si mesma. Com o tempo, Luiza sentia vergonha
do seu corpo, não queria mais ir à praia ou à piscina com os amigos. Sua pele
denunciava suas ações e, no fundo do seu pensamento racional, ela sabia que
aquilo não era legal.
A dor da alma não passava, exigindo mais torturas. Se ela resistia, crises de
abstinência lhe acometiam e o seu cérebro exigia que a lâmina voltasse a lhe
abraçar. Isso durou muitos meses até que ela procurou ajuda.
Não está sendo fácil, mas Luiza está conseguindo se manter livre do cativeiro
de sua falsa amiga que, na verdade, somente lhe escravizava. Ela está tendo
acompanhamento psicológico e o apoio da família, dos professores e dos seus
verdadeiros amigos.
A presença daquela gilete na superfície da pia neste momento traz diversas
lembranças à Luiza, principalmente neste momento, no qual o seu coração dói
tanto.
Ela pega a gilete.
Sua mão conduz a lâmina até a altura dos seus olhos.
— Você não mais me provocará lágrimas de sangue — disse firme.
Jogou a gilete na lixeira, tomou banho, voltou até a cozinha, deu um abraço
bem apertado em sua mãe e, juntas, saborearam aquele café saboroso de
domingo.
https://www.facebook.com/robison.sa
[188]