LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
No banheiro, Luiza coloca-se defronte consigo mesma, vendo sua face se
contorcendo e desfazendo o sorriso que mascarava a sua dor. Sobre a superfície
da pia, viu uma gilete descansar.
Ficou paralisada.
Um ano antes, quando os seus pais anunciaram a separação, Luiza
experimentou uma dor que jamais havia sentido. O seu coração parecia está
sendo pressionado por mãos gigantes. Havia um nó enorme em sua garganta,
mas ela não conseguia vê-lo. Sentia vontade de chorar, de correr, de se isolar.
Eram tantas sensações.
No dia que sucedeu aquela noite terrível, Luiza fora para a escola. Lá,
encontrou-se com sua melhor amiga, Pâmela, contou-lhe o que estava
acontecendo, chorou desesperadamente e abraçou-lhe.
— Já senti isso, amiga — disse Pâmela. — Às vezes, ainda sinto o amargor
dessa dor cruel.
Luiza deu-lhe um abraço ainda mais forte e perguntou-lhe:
— O que você faz para suportá-la?
A resposta a essa pergunta modificou a sua vida, talvez, para sempre.
Pâmela, a fim de responder à pergunta de Luiza, abriu o zíper de sua mochila
e de lá tirou um pequeno embrulho de papel. Devagar, foi desdobrando cada
ponta do embrulho. Num instante, com uma mão no queixo da amiga para
erguer o seu olhar ao que parecia ser uma apresentação formal, Pâmela segurou
uma pequena gilete e a levou até a altura dos olhos de Luiza.
— Nem todas as vezes que precisamos temos alguém para nos abraçar —
disse, respirando fundo. — Essa, porém, é aquela que nunca me deixou sozinha
nas horas angustiantes — falou alisando a gilete.
Luiza ouvia e observava paralisada.
— É ela quem me faz esquecer a dor da alma — continuou Pâmela. —
Quando ela abraça o meu corpo, minha alma medita em paz.
Não mais querendo sentir aquele aperto no coração, Luiza segura a gilete,
trêmula, com lágrimas escorrendo, e pede:
— Não quero mais que doa. Ajude-me!
Daí para frente esse se tornou o seu refúgio. O seu corpo passou a servir de
colete para a sua alma, que, mesmo que por instantes, sentia-se aliviada com a
transferência do seu fardo. A gilete deslizava tranquila pela carne, fazendo-a
sangrar as lágrimas do espírito.
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