LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
Ricardo Ryo Goto
São Paulo/SP
Todo mundo odeia o desperdício
Para Rossandro Klinjey
Todos vocês se lembram quando meu pai, com a intenção de aproveitar
uma oferta, comprou uma caixa de linguiça que, apesar das variações culinárias
feitas por minha mãe, sendo comida no almoço e jantar, durou semanas,
deixando-nos com séria aversão a esse alimento.
A Tônia, coitada, ficou “traumatizada” com isso, acho que até hoje evita
qualquer prato que tenha esse ingrediente na sua composição.
Eu e o Drew, como nada tínhamos a perder, levamos a coisa numa boa,
resignadamente.
Este é apenas um exemplo da idiossincrasia paterna, seu hábito de
economizar em tudo.
Trocar cupons de desconto no mercado, fechar a torneira enquanto se
escova os dentes ou ensaboa o corpo, desligar as lâmpadas de ambientes
desocupados, pegar apenas o necessário para comer e depois “raspar o prato”,
pesquisar preços antes de comprar, não adquirir por impulso, remendar as
roupas e consertar os calçados, são procedimentos comuns na nossa família,
incentivados por meu pai e reforçados por minha mãe.
Num mundo consumista como este, onde a tônica é comprar e descartar,
estar na moda, usar produtos de “marca”, gente como nós andava na contra-mão
da história.
Para uma família de 5 pessoas, de classe média baixa, vivendo no Brooklin,
era até normal que meu pai tivesse 2 empregos, minha mãe trabalhasse de vez
em quando e nós, seus 3 filhos, procurassem seguir o provérbio “tostão poupado
é tostão ganho”.
Afinal, nenhum de nós queria viver de esmolas, furtos, tráfico, contrabando
ou prostituição.
Por isso meus pais faziam questão de ganhar a vida honestamente e fazer
render ao máximo o fruto de seu trabalho.
Nem por isso nos faltou o essencial, sendo este encabeçado por Educação .
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