LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
Claro, nenhum de nós estudou em escola particular, mas sempre fomos
incentivados e cobrados em relação a resultados como obter boas notas e passar
de ano.
Mas confesso que algumas vezes sentia vergonha por andar com uma
roupa remendada (embora limpa e passada), ter que levar um lanche simples
enquanto meus colegas comiam pratos mais elaborados na cantina da escola e
aproveitar os cadernos com algumas folhas em branco do ano passado para as
matérias desse ano.
-Chris, você quer ir ao cinema comigo na quarta-feira?
-Xi, não vai dar, tenho que estudar para a prova de História – desculpava-
me para não ter que dizer que não tinha grana.
Mas afinal, o Greg era filho único e seu pai podia bancar os seus desejos.
Quando perguntei a srta. Morello o que achava de uma vida de sacrifícios,
de privação das vontades, de ”apertar o cinto” constantemente, ela percebeu a
minha angústia e respondeu:
-Chris, você como um afro-descendente é um imigrante num país de
oportunidades. Todos que chegam aqui nesta situação vêm em busca de fazer
seu “pé-de-meia”. É normal que tenham de se esforçar mais que os outros para
realizar seus sonhos. Atingir metas com alguma dose de esforço e sacrifício faz
com que o resultado seja mais prazeroso, ao qual damos maior valor.
O Doc pensava da mesma forma:
-Se eu não trabalhasse duro, economizando cada centavo, não teria meu
próprio negócio.
Até o Perigo, que não tinha um empreendimento tão honesto, se gabava de
ter lutado muito para chegar onde estava.
Mas o mais engraçado foi o comentário do sr. Omar:
-Olha aqui, eu que vivo da desgraça alheia – do falecimento dos outros –
tenho que batalhar ainda mais do que os outros para atingir meus objetivos,
afinal ninguém morre porque quer.
Acho que, do nosso círculo de relacionamento, apenas o tio Michael tinha
opinião contrária, achando que não deveria deixar para amanhã o que pudesse
comer hoje, pois, afinal de contas ele vivia sempre de favor, consumindo e
usando os bens alheios.
-Chris, não existe refeição grátis. Se você não quer vender o seu almoço
para comprar o jantar, tem que trabalhar, produzir e economizar.
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