Revista LiteraLivre 19ª edição | Seite 186

LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020 Claro, nenhum de nós estudou em escola particular, mas sempre fomos incentivados e cobrados em relação a resultados como obter boas notas e passar de ano. Mas confesso que algumas vezes sentia vergonha por andar com uma roupa remendada (embora limpa e passada), ter que levar um lanche simples enquanto meus colegas comiam pratos mais elaborados na cantina da escola e aproveitar os cadernos com algumas folhas em branco do ano passado para as matérias desse ano. -Chris, você quer ir ao cinema comigo na quarta-feira? -Xi, não vai dar, tenho que estudar para a prova de História – desculpava- me para não ter que dizer que não tinha grana. Mas afinal, o Greg era filho único e seu pai podia bancar os seus desejos. Quando perguntei a srta. Morello o que achava de uma vida de sacrifícios, de privação das vontades, de ”apertar o cinto” constantemente, ela percebeu a minha angústia e respondeu: -Chris, você como um afro-descendente é um imigrante num país de oportunidades. Todos que chegam aqui nesta situação vêm em busca de fazer seu “pé-de-meia”. É normal que tenham de se esforçar mais que os outros para realizar seus sonhos. Atingir metas com alguma dose de esforço e sacrifício faz com que o resultado seja mais prazeroso, ao qual damos maior valor. O Doc pensava da mesma forma: -Se eu não trabalhasse duro, economizando cada centavo, não teria meu próprio negócio. Até o Perigo, que não tinha um empreendimento tão honesto, se gabava de ter lutado muito para chegar onde estava. Mas o mais engraçado foi o comentário do sr. Omar: -Olha aqui, eu que vivo da desgraça alheia – do falecimento dos outros – tenho que batalhar ainda mais do que os outros para atingir meus objetivos, afinal ninguém morre porque quer. Acho que, do nosso círculo de relacionamento, apenas o tio Michael tinha opinião contrária, achando que não deveria deixar para amanhã o que pudesse comer hoje, pois, afinal de contas ele vivia sempre de favor, consumindo e usando os bens alheios. -Chris, não existe refeição grátis. Se você não quer vender o seu almoço para comprar o jantar, tem que trabalhar, produzir e economizar. [183]