LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
santa por todos aqueles anos, que ela poderia ter falado com ele, que ele a teria
ouvido. Ela retrucou que não, que ele precisava de um tempo para amadurecer, e
que, agora, com sete anos, Zaqueu teria a capacidade de compreender e que
conseguiria guardar segredo da amizade deles, e se o menino falasse sobre isso
com alguém, iria voltar para a condição de amalucado.
Naquela noite, não conversaram muito. Reservaram tempo para pensar
sobre o encontro, sobre as sensações. E, vendo que o menino estava sonolento,
a santa, sussurrando, entoou uma cantiga de ninar. A melodia na voz tão doce,
logo trouxe o silêncio.
Ao acordar, Zaqueu colocou-se diante da santa e, com um sorriso travesso,
enviou-lhe uma piscadela. Sentia-se seguro, confiante. Teria um dia ainda mais
completo. Passou pela mãe esperando que ela bronqueasse com o falatório da
noite. Imaginava que ela tivesse escutado a conversa dele com a santa. Nada.
Ninguém tocou no assunto.
Que vontade de contar! Mas não podia, era trato guardar segredo. Um dia
alguém iria perguntar. Até lá, não teria que se preocupar. Levou tempo para ficar
convencido de que a conversa com a santa não era percebida por outros ouvidos.
Sentiu-se confortado. Teriam muita liberdade nas conversas.
E quantas
aconteceram. Encontrava na santa a melhor amiga, a conselheira, a parceira de
risadas gostosas, a confidente. Artífice da esperança.
Demorou a falar sobre a saudade do pai. Por muitas vezes, planejou
perguntar sobre a volta dele. Sabia que a santa guardava segredos sobre este
assunto, que conhecia os seus sentimentos. Mas tinha medo de ouvir a resposta.
Zaqueu desenvolvia, a cada dia, uma tolerância amorosa com os irmãos,
estava sempre de prontidão para amainar as rusgas entre eles, vivia uma ligação
de profundo afeto e esmerada proteção com a mãe. Apesar da dificuldade da
vida, do pouco, a paz era infinita.
De começo, a mãe ficou confusa com a parada da gritaria e do choro.
Observava de longe. Ruminou pensamentos por algum tempo, ficou cismada,
mas como a vida já havia lhe cobrado tanto, entregou-se à ventura. Assim era
melhor, muito melhor...
Uma noite, resolveu falar com a santa sobre o pai. Perguntou se ele voltaria
algum dia. Depois que fez a pergunta, o coração pulava no peito. Queria ouvir,
mas queria que a resposta fosse aquela que precisava ouvir. Mas não ouviu nada.
A santa não falou. Reservada, combinou que a resposta seria buscada por eles
dois, era um novo compromisso.
Sem entender, Zaqueu nunca mais tocou no assunto.
E, nesse compasso, a vida seguia. A irmã mais velha já estava casada, os
gêmeos eram homens feitos, trabalhadores. Zaqueu era um jovem cheio de
sonhos. O maior deles: o sonho sulista. Falava sempre com a santa sobre o
desejo de pousar em outras terras. E sentia que este tempo havia chegado. A
mãe acompanhava os planos, dolorida.
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