Revista LiteraLivre 19ª edição | Page 181

LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020 Numa última conversa, sem que ele soubesse que assim seria, a santa, com a mesma ternura, com o mesmo cuidado de todos aqueles anos, alisava os cabelos de Zaqueu e dizia que, chegando ao destino, ele encontraria a resposta que mais buscou ouvir. Que lá, no desembarque, terminaria o compromisso que eles tinham selado. Que, então, seria o fim de um tempo e o início de outro. E foi um abraço longo, um abraço de adeus. O menino, que deixara de ser menino, percebeu que seria o último encontro. Não questionou, não pediu, não implorou. Compreendeu. A santa ficaria ali, sobre a velha cômoda. Era o seu canto. Em meio a choros e despedidas, bagagem carregada de sonhos, Zaqueu partiu. Naquela noite, não haveria conversa com a santa. Nem na outra, nem na outra... Três dias depois, o ônibus chega ao destino. O dia acaba de clarear, o sol desponta com uma luminosidade intensa, parece que labaredas brotam do céu. Zaqueu protege os olhos. Desta vez, a claridade descomunal não o faz gritar, nem chorar. Não sente pavor, não sente medo. Compreende. De repente, ouve chamar pelo seu nome. Demora um tempo para assimilar. Vira-se devagar e percebe que o velho ao seu lado diz: “meu filho”... Nas mãos dele, uma fotografia. A mesma foto que Zaqueu tirou, dias atrás, para fazer os documentos. Olharam-se, profundamente, em silêncio. E foi um abraço longo, um abraço de saudade. [178]