LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
Numa última conversa, sem que ele soubesse que assim seria, a santa,
com a mesma ternura, com o mesmo cuidado de todos aqueles anos, alisava os
cabelos de Zaqueu e dizia que, chegando ao destino, ele encontraria a resposta
que mais buscou ouvir. Que lá, no desembarque, terminaria o compromisso que
eles tinham selado. Que, então, seria o fim de um tempo e o início de outro. E foi
um abraço longo, um abraço de adeus. O menino, que deixara de ser menino,
percebeu que seria o último encontro. Não questionou, não pediu, não implorou.
Compreendeu. A santa ficaria ali, sobre a velha cômoda. Era o seu canto.
Em meio a choros e despedidas, bagagem carregada de sonhos, Zaqueu
partiu.
Naquela noite, não haveria conversa com a santa. Nem na outra, nem na
outra...
Três dias depois, o ônibus chega ao destino.
O dia acaba de clarear, o sol desponta com uma luminosidade intensa,
parece que labaredas brotam do céu. Zaqueu protege os olhos. Desta vez, a
claridade descomunal não o faz gritar, nem chorar. Não sente pavor, não sente
medo. Compreende.
De repente, ouve chamar pelo seu nome. Demora um tempo para assimilar.
Vira-se devagar e percebe que o velho ao seu lado diz: “meu filho”...
Nas mãos dele, uma fotografia. A mesma foto que Zaqueu tirou, dias atrás,
para fazer os documentos.
Olharam-se, profundamente, em silêncio. E foi um abraço longo, um abraço
de saudade.
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