LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
incômodo. O menino não entendia a razão de aquela cobra fazer parte do adorno.
Mau gosto.
Nesse tempo, Zaqueu não tinha mais que quatro anos. Não havia razão
aparente para a falta de sono. O corpo estava sempre cansado das estripulias do
dia, a comida era pouca, mas costumeira. Só o que lhe cutucava o sossego era a
saudade do pai. Havia partido em busca do sonho sulista logo que a mãe
embarrigou da caçula. Até ali, nada de notícia. Era só essa amolação que ele
remoía. Nada mais. Era uma saudade tão aguda que não tinha dia que Zaqueu
não apertasse os olhos para tentar ver o pai despontar lá longe, na estrada,
voltando.
E, numa noite, num repente, Zaqueu olhou o vulto da santa e percebeu que
o quarto começou a ficar iluminado. Era uma luz tão intensa que emanava das
mãos e da cabeça da santa que parecia feixe de raios incandescentes. A potência
da luz era tamanha que ofuscava totalmente a visão, alucinava, cegava.
Queimava os olhos. Não havia como olhar demoradamente naquela direção. E
Zaqueu, assustado, gritava, se debatia, pedia para que a mãe desviasse aquela
luz.
A mãe, sem entender o pavor da criança, tentava, de todas as formas,
acalmar Zaqueu. Sentia angústia quando ouvia os gritos em razão de não
compreender de qual luz ele falava, que claridade era aquela que ninguém mais
via! Querendo engolir a dor que teimava em lhe castigar o peito e lutando para
enxotar o pensamento de que o filho era leso das ideias, a mãe ralhava com o
menino em altos brados, tentava fechar-lhe a boca, dava-lhe beliscões como se
quisesse trazê-lo para a realidade. Ordenava que ele se calasse, que parasse com
aquele berreiro que tirava o sossego das crianças.
E nada. A cena se repetiu por muito tempo. Zaqueu chorava e gritava até
perder o fôlego e adormecer, exausto.
A caçulinha já corria sozinha por todos os cantos quando, pela primeira
vez, após meses e meses de constantes crises de pavor, Zaqueu não se
incomodou com as luzes. Não gritou, não esbravejou. Aliás, naquela noite, a
santa não ficou iluminada. O menino dormiu encolhido, mansamente. O sono era
tão profundo e sereno que, sentindo os sacolejos, Zaqueu despertou totalmente
confuso. Custou a perceber que a mulher que o tocava não era a mãe. Era a
santa. E não ficou assustado. Não gritou, nem esperneou. Sentou-se,
rapidamente. Apesar da escuridão da noite, via, com nitidez, a figura angelical ao
seu lado.
Com calma, a santa acomodou-se, acariciou os cabelos do menino e
tomou-lhe as mãos. Arrepiado, olhou para os pés dela. Ainda bem que a cobra
não estava lá. Sentiu um alívio.
A santa, amorosamente, dizia que Zaqueu não precisava temer a presença
dela, que seriam grandes amigos. Sussurrou que estava se sentindo sozinha, que
queria conversar, que sofria quando Zaqueu olhava para ela e punha-se a gritar,
que nunca teve a intenção de assustá-lo. Ele perguntou a razão do silêncio da
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