Revista LiteraLivre 19ª edição | Page 178

LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020 Regina Ruth Rincon Caires Campinas/Araçatuba/SP Santo segredo No canto do quarto, no restolho de um berço, Zaqueu dormia. Aquele arremedo de cama, sem grades laterais, havia servido como abrigo de muitos rebentos, ali, por aquelas paragens. De tamanho reduzido, não permitia que o menino esticasse as pernas. Dormia como vivia: encolhido. Não reclamava, era o suficiente. Pareada com a dele, a cama grande da mãe era dividida entre ela, Gerusa – a filha mais velha, já moça, e a caçulinha. Mais lá no canto, dormiam os gêmeos, um cheirando o pé do outro. O espaço era abarrotado, sobrava apenas um vão para a velha cômoda, perto da porta. Móvel imenso, carregado por gerações. E, sobre a cômoda, a santa. Desde os quatro anos, Zaqueu passou a coabitar com a santa. Até então, era apenas uma peça de barro, um adereço que a mãe cuidava com muita afeição e que servia para escorar um puído rosário que lhe era enlaçado nos ombros. De início, a convivência com a santa foi turbulenta. Tempo de pavor, de gritaria, de desespero. Um desassossego só. Período sem entendimento. Foram muitos tapas, beliscões, conflitos, engalfinhamentos. Ninguém compreendia as atitudes de Zaqueu. Era desacreditado, tido como doido. Mas, não era. Só ele sabia que não era. Só ele, não. Ele e a santa. Nem bem escurecia, não restava opção que não fosse se aninhar. O dia levava, com a sua claridade, as brincadeiras, o andar sem rumo, a largueza de correr pela estrada tentando chegar ao encontro do céu e da terra, lá no fim, no mesmo lugar em que se esconde o pote de ouro. E todos se recolhiam. A mãe e a irmã mais velha, cansadas com a trabalheira do dia, dormiam assim que colocavam o corpo na cama. Parecia desmaio. Os gêmeos ficavam arreliando por um tempo, mas logo o sono os vencia. A caçula, pendurada na mirrada teta da mãe, resmungava por pouco tempo. Zaqueu, não. Lutava contra uma insônia sem nome. Remexia-se tanto na minúscula cama que o pano amarfanhado que forrava o colchão escapava das beiradas. E, aí, nessa briga de pernas, tudo começou. Em noite de lua, com a claridade que vazava as telhas desalinhadas, conseguia divisar os vultos da mãe, dos irmãos. Mas, nas noites negras, na pretura do quarto, não via nada, absolutamente nada. E observava tudo isso quando estava deitado, com a cabeça levemente alteada pelo surrado travesseiro. Tinha uma visão turva do ambiente, menos da santa. Ela estava sempre lá, no lugar mais alto, imponente. O rosto era suave, havia mansidão naquelas mãos em gesto de dar, de receber. Era bonita. A cobra sob os pés era o [175]