Revista LiteraLivre 19ª edição | Page 171

LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020 — Eu?... — É você mesmo que vinha conversando com seus botões. — Não, só estava dando uma olhadinha mesmo! — Ora, não se abespinhe, entre na conversa conosco... O que acha dessas nossas considerações com respeito aos humanos? — É bem interessante, mas eu sou meio bronco quanto a isso. Vocês são notáveis no entendimento sobre os humanos. Eu já não posso dizer o mesmo... — Ora, mas por que tanta contrariedade? — Ora, só hoje já sofri três bordoadas, uma logo cedo ao mendigar um osso para roer como desjejum. O desinfeliz do açougueiro me tacou um balde de água suja nos meus focinhos e o outro, agora a pouco, ali no centro de convenções: sofri uns sopapos e me expulsaram do auditório. E o pior: Ao me candidatar a uma vaga de emprego, em que pese eu passar em todos os testes para a vaga que eles pediam, não me contrataram pelo simples fato de eu ser cachorro, vocês acham isso justo?... Mas como eu estava dizendo, só estava observando o jardim e percebi que vocês estão um pouco maltratadas, sofrendo de falta de cuidados, até me parece que vocês estão com sede, não sabe me dizer se estão precisando de um jardineiro? — E você seria esse tal jardineiro que se oferece? — Sim, eu mesmo, estou precisando muito de um emprego. — Ora, ora! Precisamos sim, não queira saber o valor de um jardineiro para as rosas! Eles nos são o bem maior que podemos ter! São eles que nos dão amor, carinho e todos os cuidados que precisamos ter! — Pois então, vocês não me querem como o cuidador de vocês, serei seu jardineiro para todas as horas? — Ora, querer nós queremos, mas não temos como lhe pagar, há não ser que a nossa humana lhe contrate. Por que você não fala com ela?... Eh, olha, lá vem vindo ela!... Vá, fale com ela! De pronto Salomão, se empertigou todo, aprumou o espinhaço, deu uma leve balançadinha de rabo, para demonstrar um pouco de satisfação, para quem sabe sua futura humana? Não deu outra, logo as rosas, num espalhafato de entusiasmo, se alvoroçaram numa algazarra só. – e gritaram na maior euforia: — Lili, Lili!... Olhe esse cachorrão está querendo ser nosso jardineiro. Fale com ele!... Contrate-o! [168]