LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
Quando num repente, Salomão começou a sentir um aperto: vontade de urinar.
Mas não tendo ali nenhum poste nem um arbusto por perto, ao encontrar uma
perna encostada na parede resolveu que ali mesmo iria dar uma pequena
descarga urinária. “Hum!, pra quê!...” – constatando a besteira que fizera – Logo
recebeu de chofre uma enxurrada de palavrões acompanhados de chutes e
tabefes por todos os lados. E expulso sumariamente do local.
Acabrunhado, com o rabo entre as pernas, foi saindo de mansinho, mais que
indignado, envergonhado com mais esta desfeita dos humanos para com ele.
Ao passar pela recepção, umas belíssimas senhoritas, distribuíam balas,
revistas e livros infantis. Que amavelmente lhe ofereceram alguns exemplares.
Bala ele não quis, mas pegou alguns livros e revistas em quadrinhos. Lembrou de
quando, no seu bairro onde vivia, sempre que fazia um pequeno plantão no
ponto de ônibus, de manhã cedo, a meditar sobre os imbróglios e mazelas da
vida, das monótonas paisagens em preto e branco que só ele via, passavam um
tanto de crianças a caminho da escola e lhe afagavam a cabeça com suas
delicadas mãozinhas... Iria levar umas revistinhas para elas, iriam gostar. Nesses
pensamentos tomou a rua de novo, com as revistas sobre as costas.
Caminhou, caminhou, quando ao passar à frente de um jardim um tanto
descuidado. Maltratado mesmo. Parou um pouco e ficou a observar com certa
comoção: como seria bom um jardim bonito, ali de frente para a rua. O quanto
não iria alegrar o visual do bairro! Quando de repente observa que duas rosas
conversavam dissimuladamente entre si. Aguçou os ouvidos que, como é sabido,
os cães são uns privilegiados com o sentido da audição, mas ele procurou ficar
mais atento, pois as rosas, em verdade, cochichavam. Pôs-se, então a ouvi-las
com muita atenção. Do que conversam as rosas, oras! E lançou um olhar ao todo
do jardim na intenção de ver se havia mais algum interlocutor. Não havia. Eram
só as duas rosas mesmas. Havia sim, mais ao canto três bromélias, mas estavam
mudas. Era mesmo de se admirar duas rosas conversando!
As rosas por costume importam pouco ou quase nada com os problemas
alheios. E esse hábito, em não cuidar da vida dos outros, explica-se em virtude
da curta duração de suas efêmeras vidas, evidente que não era nada proveitoso
desperdiçarem seu precioso e fugaz tempo com as picuinhas alheias. Além do
que as rosas bem sabem que dos humanos não lhes guardam mágoas, visto
serem elas mote para suas poesias, com belas palavras de amor; aromas a servir
suas águas de cheiro, bálsamos aos olfatos dos enamorados; e todos os olhos as
veem com carinho, admiração e afeto. Era este prosear que Salomão ouvia.
Quando ouviu uma menção a ele, do qual se surpreendeu.
— Ei, você aí, que está nos espiando...
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