Revista LiteraLivre 19ª edição | Page 169

LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020 O gerente continuou em sua relutância em contratá-lo. E já exasperado disse: — Você tem muitas qualidades, mas preciso de um funcionário que seja bilíngue, e pelo que tenho conhecimento, cachorro não fala outra língua se não as dos cachorros mesmos, certo? Ah!, o Salomão não vacilou, e o encarou com o ponto mais alto da sua dignidade. Olhou nos olhos do sujeito com toda empáfia que Deus lhe deu, e na cara dele proferiu dois sonoros: Miau! Miau!... E se retirou do local sem esperar por mais uma discriminação. ***** Ainda um tanto transtornado saiu a falar com seus botões. Sem perspectivas, estava se atordoando. Era urgente arrumar um trabalho, mas como arrumar uma vaga de emprego decente se a sua condição de cachorro era um problema insolúvel para uma sociedade mergulhada no preconceito. Já não bastassem contra os negros, os homossexuais, os deficientes, os pobres; e até para com os animais que, eles os humanos, hipocritamente dizem gostar tanto, que os cachorros são os melhores amigos do homem. É esse o troco que recebe? A rejeição, o desprezo, a indiferença, essa discriminação tão cruel? Nessas conjecturas ia Salomão caminhando, quando se depara com um centro de convenções, onde uma placa lhe chamou a atenção, que dizia: “SEMINÁRIO SOBRE O TEMPO E O SILÊNCIO DA CRIANÇA”. Ele que se dizia um apaixonado por criança e que tem interesse por tudo o que diga respeito a elas, e como não estava atinando o que fazer com o seu próprio tempo, entrou sem titubear. E foi se roçando pelas pernas de um, passando por baixo de outras, até chegar num grande auditório. “Hum!, estava quase cheio.” – observou ele – Não quis sentar nas cadeiras dos humanos, não queria chamar muita atenção. Encostou-se numa lateral do corredor; baixou os quartos traseiros, e se apoiou nas patas dianteiras, com as nádegas no chão. “Nádegas! Quem chama isso de nádegas ou bunda nunca viu um separador de pernas.” – resmungou Salomão, achando graça de seu comentário idiota. A conferência estava começando. Falavam, como dito no cartaz, sobre o tempo e o silêncio das crianças em formação. Os palestrantes debatiam com entusiasmo o assunto. Salomão começou a achar estranho: “Oras um seminário sobre crianças, mas cadê as crianças? Só sendo coisa de humanos mesmo!... Onde já se viu tratar de criança, sem a participação das próprias, que são as mais interessadas!...” [166]