Revista LiteraLivre 19ª edição | Page 158

LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020 Marysia Raposo Campinas/SP Uma Cara na Janela Sílvia chegou em casa, atirou-se no sofá, jogou os sapatos para os lados e ficou por algum tempo refazendo-se do cansaço. Já não era a mesma de alguns anos atrás. Cansava-se facilmente. Acabara de chegar do médico. Consulta de rotina. Felizmente estava tudo bem. A pressão estava normal e todos os exames estavam dentro dos limites desejáveis, mas Sílvia sentia-se diferente. Não sabia explicar o que se passava com ela. Uma angústia sem motivo oprimia seu peito. Parecia que faltava alguma coisa. Tentou refazer todo o seu trajeto daquela tarde, mas parecia que havia um branco em sua memória. Fez um grande esforço mas não conseguiu se lembrar de onde estivera. Tinha consciência de ter ido a algum lugar. Estava toda arrumada, morta de cansada... Mas onde tinha ido? Que coisa estranha! Tinha a sensação de haver passado uma borracha em seu cérebro e apagado tudo o que tinha feito naquela tarde. Resolveu deitar um pouco para descansar. Talvez, depois de tirar uma soneca conseguisse lembrar-se de tudo.. Dormiu um sono tranquilo e, mais tarde, quando Adriana chegou, Sílvia levantou-se alegre e sorridente. Parecia a mesma mulher de sempre. Parecia só, porque quando a filha lhe perguntou sobre a consulta que havia feito naquela manhã, Sílvia demonstrou espanto. Parecia ignorar sobre o que ela estava falando e afirmou não ter saído de casa naquele dia. Diante da insistência de Adriana afirmando tê-la deixado na porta do consultório médico, Sílvia fez um grande esforço para trazer à sua memória os fatos ocorridos naquele dia. Pensou, pensou e não conseguiu lembrar-se de nada. Atribuiu aquele esquecimento ao fato de ter acordado um pouco antes e não estar conseguindo coordenar seus pensamentos. [155]