LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
Marysia Raposo
Campinas/SP
Uma Cara na Janela
Sílvia chegou em casa, atirou-se no sofá, jogou os sapatos para os lados e
ficou por algum tempo refazendo-se do cansaço. Já não era a mesma de alguns
anos atrás. Cansava-se facilmente.
Acabara de chegar do médico. Consulta de rotina. Felizmente estava tudo
bem. A pressão estava normal e todos os exames estavam dentro dos limites
desejáveis, mas Sílvia sentia-se diferente. Não sabia explicar o que se passava
com ela.
Uma angústia sem motivo oprimia seu peito. Parecia que faltava alguma
coisa. Tentou refazer todo o seu trajeto daquela tarde, mas parecia que havia um
branco em sua memória.
Fez um grande esforço mas não conseguiu se lembrar de onde estivera.
Tinha consciência de ter ido a algum lugar. Estava toda arrumada, morta de
cansada... Mas onde tinha ido? Que coisa estranha! Tinha a sensação de haver
passado uma borracha em seu cérebro e apagado tudo o que tinha feito naquela
tarde.
Resolveu deitar um pouco para descansar. Talvez, depois de tirar uma soneca
conseguisse lembrar-se de tudo..
Dormiu um sono tranquilo e, mais tarde, quando Adriana chegou, Sílvia
levantou-se alegre e sorridente. Parecia a mesma mulher de sempre.
Parecia só, porque quando a filha lhe perguntou sobre a consulta que havia
feito naquela manhã, Sílvia demonstrou espanto. Parecia ignorar sobre o que ela
estava falando e afirmou não ter saído de casa naquele dia.
Diante da insistência de Adriana afirmando tê-la deixado na porta do
consultório médico, Sílvia fez um grande esforço para trazer à sua memória os
fatos ocorridos naquele dia.
Pensou, pensou e não conseguiu lembrar-se de nada. Atribuiu aquele
esquecimento ao fato de ter acordado um pouco antes e não estar conseguindo
coordenar seus pensamentos.
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