Revista LiteraLivre 19ª edição | Page 152

LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020 Um grunhido de raiva e um choro convulsivo me tiraram da inércia. Olhei por aquela pequena janela para o outro mundo. Meu coração deu um salto e parou. Eu não consegui ver onde estava a garota. Só sua mão estendida em súplica em direção a ele. O “Sr. Curiosidade”. O rosto feroz e impassível. Apontando uma arma na direção daquela que lhe pedia ajuda. – Não! – meu grito ecoou pela casa. Eu não poderia ter errado tanto em relação a ele. Por causa dele eu tinha começado a ter esperanças. Eu soluçava agora. Toquei o nó em minha garganta. Senti o metal de uma chave. Não poderia ser. Estaria comigo todo esse tempo? O som de uma arma sendo disparada reverberou em meus ouvidos. Dor em meu peito e em meus braços, como se garras afiadas estivesse me dilacerando. Em desespero, consegui abrir aquela maldita porta. No chão, morto, eu vi uma enorme criatura. A maior parte, um gato feroz, mas com alguns traços de cobra, jacaré, águia e dragão. A garota estava ajoelhada com enormes vincos sangrando em seus braços. O rapaz altivo me olhava, como um guerreiro que vence a batalha. – Eu matei o último monstro. Você pode deixar a porta aberta agora. E se você me permitir, eu posso morar aqui. Observei a minha volta e percebi o cômodo pulsando no mesmo ritmo do meu coração. O chão estava maltratado, ferido, porém já nasciam pequenas flores em alguns cantos. Virei-me chocada pelo crescente entendimento e notei a moça. Uma réplica de mim. Chorando agradecida. – Obrigada. Você pode ficar. Há mortes feias e muito doloridas. De entes queridos, de sonhos, da nossa vontade de viver. Mas, há beleza na morte, principalmente quando ela derruba os monstros que impedem o nosso coração de ser feliz. [149]