LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
para outro mundo. Eu conseguia ver um longo labirinto. A mocinha estava
correndo e um animal, mistura de rinoceronte com urso, a perseguia. Os baques
vinham da colisão daquele monstro com as paredes do labirinto.
Eu não queria ver nem ouvir aquela perseguição. Os gritos. O pavor da
garota. Porém, eu tinha a sensação de que e eu tirasse os olhos seria pior. O
animal a alcançou e enfiou o chifre em seu tronco. Ela caiu imóvel. Eu, exausta
dos gritos e com uma dor no lado esquerdo.
A lembrança do rapaz curioso preencheu minha mente. Ele estava na
pracinha brincando com algumas crianças. Senti vontade de ser criança
novamente. Ele me viu. Sorriu. Ele me transmitia paz. Porém, fui embora sem
olhar para trás.
Desta vez, foram risos que ecoaram pela casa. Aquele cômodo estava
exercendo um fascínio mórbido sobre mim. Fiquei surpreendida com o que vi. Um
gramado florido era banhado por um sol radiante. O perfume de flores e frutos
chegou até mim fazendo meu estômago vazio roncar. Vi a menininha segurando
a mão de um homem. Estavam de costas caminhando por uma trilha. Ela
saltitava e ria. De repente, ele olhou para trás, diretamente para mim e sorriu.
Naquela tarde eu tinha ido ao supermercado. Meus braços estavam cheios
das sacolas de compras. Ouvi uma bela voz ao meu lado:
– Posso ajudar?
Era o belo rapaz. Entreguei-lhe algumas sacolas. Na soleira, ele parou, já ia
embora. Abri a porta.
– Você quer entrar?
O sorriso que ele me dirigiu iluminou toda a casa. Passamos a melhor tarde
da minha vida. Contei toda a minha vida para ele. Meus problemas passados. O
quarto sem chave, que ele quis ver.
– Cadê a chave? – ele olhava para mim com um olhar indagador. – Você
pode abrir a porta.
– Não sei onde está a chave! – falei agressiva.
Ele foi embora triste, mas me pediu que o chamasse quando precisasse.
Os gritos altos e o som de garras arranhando me tiraram dos meus
devaneios. Nunca tinha sentindo tanto medo. Lembrei-me da promessa do rapaz.
Eu queria a sua ajuda. Mentalmente eu supliquei: por favor, me ajuda... Como
era o nome dele? Conversamos a tarde toda como se nos conhecêssemos há
séculos, mas eu não tinha dito meu nome. Nem ele, o dele.
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