Revista LiteraLivre 19ª edição | Seite 150

LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020 Maria do Carmo Araujo Bonfim Senhor do Bonfim/BA Posso morar aqui? Eu mudei de cidade, de vizinhança, de casa. Eu queria mudar de mim mesma. Muitos amores perdidos. Uns levados pela morte. Outros por me abandonarem. Sonhos desfeitos. Vida que não segue. Comprei o pequeno sobrado por uma bagatela. Talvez, se eu tivesse investigado mais, teria descoberto por que a última dona tinha avaliado tão baixo a propriedade. Porém, eu só queria um novo recomeço. Conheci o “Sr. Curiosidade” no dia em que me mudei. Um rapaz simpático, cabelos cacheados, olhos verdes, um sorriso permanente no rosto. Ele me ajudou a descarregar as caixas do caminhão. Mesmo sem eu pedir. Deixava-as à porta e voltava para pegar outras enquanto puxava conversava comigo, perguntando sobre minha vida. Eu permanecia calada. Com a última nas mãos, parou na soleira da porta. – Posso? – estava desacostumada com solidariedade. Odiava sua curiosidade. Quando olhei para ele intrigada, ele complementou sorrindo: – Não sou ladrão. Nem assassino. Só quero ajudar. Posso entrar e colocar as caixas lá dentro? Eu não o conhecia. Eu não tinha mais confiança em ninguém. Carreguei as caixas sozinhas. Olhei cada cômodo daquele sobrado decrépito, vazio, triste. Encontrei um aposento trancado. Tentei abrir com as chaves que a antiga dona me dera. Nenhuma serviu ali. Resolvi deixar para outro dia. Não sei se isso foi o certo. Acordei assustada no meio da noite com um choro de criança. Quando percebi eu estava diante daquele cômodo. Daquela porta. Espiei pelo buraco da fechadura. Consegui ver o vulto de uma criança encolhida a um canto do que parecia ser um quarto frio e sombrio. Algo monstruoso se rastejava em sua direção. Uma mistura de cobra gigante com asas de morcego. Eu queria ajudar, mas a porta não tinha maçanetas. Eu não tinha a chave. Meus gritos se misturavam aos da menina. Meu choro ao dela. Ouvi uma voz clara dizendo: – Estou aqui. Eu vou ajudar. Os gritos recomeçaram. Fortes batidas. Olhei novamente pelo buraco da fechadura. Desta vez, o cenário no cômodo tinha mudado. Era como uma janela [147]