LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
Maria do Carmo Almeida Corrêa
Bauru/SP
À beira-mar
Olhei para a mulher que olhava o mar. Julguei que a compreendia. Queria
aproximar-me, fazer-lhe umas perguntas. Mas antes lamentei não ser pintor,
para eternizar em quadro essa beleza plácida de uma mulher de preto
contemplando o mar. Tentei imaginar seus sentimentos. Melancolia? Saudade?
Luto? Infinita tristeza?
Num lampejo de audácia imaginativa, cheguei a ver seu rosto. E me
aproximei pensando no que lhe diria.
Meus passos ressoavam na calçada de pedras, mas ela não se voltou.
Protegida pela sombrinha, parecia totalmente imersa na contemplação das
águas. Não resisti. Sem pedir permissão, bati uma, duas, muitas fotos. Todas
focadas na sombrinha cor de rosa, que poeticamente contrastava com a
sobriedade
da
paisagem
e
das
vestes
daquela
que
a
empunhava.
Cheguei mais perto e sua imobilidade começou a incomodar-me. Por que tão
impassível? Não ouvia que alguém se aproximava? Não lhe importava o mundo e
seus ruídos?
E a curiosidade aumentava. Seria uma jovem enlutada de amor? Ou apenas
uma idosa descansando após a caminhada?
Cheguei enfim a um passo de distância. Toquei a sombrinha, que,
desequilibrada, tombou ao chão. E me vi diante de um hidrante coberto por um
tecido negro... e mais nada.
Alguma piada de um desocupado?
Preferi pensar numa intervenção artística à beira mar...
Recompus a cena e parti. Levava comigo as fotos e o privilégio de ter vivido
um mágico instante de poesia.
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