LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
Os segundos que esperou a resposta do diretor da indústria de sabão foram
tão longos que faltou ar em seu pulmão. Talvez os sonhos tenham pulado da
mesa do chefe para seus ombros e ele, desprevenido, perdeu o fôlego com o
impacto daquele salto brusco sobre suas costas magras. O estrago que o gestor
temia não foi calculado pelo diretor, que questionou o que o rapaz fazia ali
desperdiçando tempo enquanto as máquinas trabalhavam.
– Você é útil na linha de produção.
Valdecir ainda não entendia porque há pessoas tendentes ao escárnio
gratuito. Um diploma, uma vaga e um “não” injustificado. Foi a última vez que
suas sobrancelhas baixaram a guarda. Desceu as escadas arfando, dilacerante, e
exigiu que se abrisse a porta da fábrica em horário de expediente. Violaria as
regras? Pois que se danassem. Ele iria trocar o macacão ensaboado pela máquina
de escrever.
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