LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020
Maria Carolina Fernandes Oliveira
Belo Horizonte/MG
Certifcado de Datilografa
Valdecir estava feliz da vida. Cortou a ponta do dedo polegar de tanto alisar
o diploma, mas limpou o sangue no bolso da calça e tornou a contornar com o
indicador aquelas letras difíceis do Certificado de Datilografia. Pensou em como
ficaria o nome de sua mãe adornado assim. Coisa bonita! Mesmo ele poderia
aprender os contornos, não era mais arriscado perder o braço ou a mão na linha
de produção e deixar o aprendizado pela metade. Iria ser datilógrafo. As
sobrancelhas sempre tão arqueadas, a testa sempre tão rija, cederam para
acompanhar o sorriso tímido que brotou no canto da boca. Iria mesmo ser
datilógrafo.
Era no chão de fábrica da indústria de sabão que as máquinas carimbavam
as embalagens e os dedos dos operários. Era no escritório do gestor, no segundo
andar daquele enorme galpão, que Valdecir entrou de sobrancelhas e diploma
sonhadores. Ele queria trocar o macacão ensaboado pela máquina de escrever.
– Peço uma oportunidade no escritório, senhor. Tenho diploma.
O gestor, um careca atarracado de pescoço curto e olhar comprido, mirou o
homem vestido de operário e o papel sobre a mesa. Não era um papel comum,
carregava o peso dos sonhos de Valdecir. E quão robustas eram aquelas
fabulações! Um desavisado não conseguiria carrega-las, mas Valdecir as leva-la
dentro de um grande saco sobre os ombros, todos dias, da casa ao trabalho, do
trabalho à casa. Nessa manhã, especialmente, tirou os sonhos da sacola e os
depositou sobre o diploma. A geladeira cheia, o irmão orgulhoso, a graduação, o
concurso público... estavam todos ali sobre a folha de papel. O gestor não se
atreveu a mover-se. Não poderia derrubar sonhos tão grandes no chão. Faria um
estrago.
– Pegue sua autorização com o diretor, menino. A vaga é sua.
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