Revista LiteraLivre 19ª edição | Page 147

LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020 Maria Carolina Fernandes Oliveira Belo Horizonte/MG Certifcado de Datilografa Valdecir estava feliz da vida. Cortou a ponta do dedo polegar de tanto alisar o diploma, mas limpou o sangue no bolso da calça e tornou a contornar com o indicador aquelas letras difíceis do Certificado de Datilografia. Pensou em como ficaria o nome de sua mãe adornado assim. Coisa bonita! Mesmo ele poderia aprender os contornos, não era mais arriscado perder o braço ou a mão na linha de produção e deixar o aprendizado pela metade. Iria ser datilógrafo. As sobrancelhas sempre tão arqueadas, a testa sempre tão rija, cederam para acompanhar o sorriso tímido que brotou no canto da boca. Iria mesmo ser datilógrafo. Era no chão de fábrica da indústria de sabão que as máquinas carimbavam as embalagens e os dedos dos operários. Era no escritório do gestor, no segundo andar daquele enorme galpão, que Valdecir entrou de sobrancelhas e diploma sonhadores. Ele queria trocar o macacão ensaboado pela máquina de escrever. – Peço uma oportunidade no escritório, senhor. Tenho diploma. O gestor, um careca atarracado de pescoço curto e olhar comprido, mirou o homem vestido de operário e o papel sobre a mesa. Não era um papel comum, carregava o peso dos sonhos de Valdecir. E quão robustas eram aquelas fabulações! Um desavisado não conseguiria carrega-las, mas Valdecir as leva-la dentro de um grande saco sobre os ombros, todos dias, da casa ao trabalho, do trabalho à casa. Nessa manhã, especialmente, tirou os sonhos da sacola e os depositou sobre o diploma. A geladeira cheia, o irmão orgulhoso, a graduação, o concurso público... estavam todos ali sobre a folha de papel. O gestor não se atreveu a mover-se. Não poderia derrubar sonhos tão grandes no chão. Faria um estrago. – Pegue sua autorização com o diretor, menino. A vaga é sua. [144]