Revista LiteraLivre 19ª edição | Page 146

LiteraLivre Vl. 4 - nº 19 – Jan./Fev. de 2020 Marcos Nunes Loiola Botuporã/BA As Criaturinhas O ano é 3200. Aquelas pequenas criaturas eram tidas, há séculos, como erradicadas da face da Terra. As gerações vindouras só as conheciam por fotografias e vídeos em sites da Internet ou, ainda, em livros de Ciências (que não foram extintos, felizmente). Mais raramente, exemplares mumificados da espécie poderiam ser encontrados em alguns museus, aqui e acolá. Todavia, todos estavam redondamente enganados. Os bichinhos resistiram ao tempo, às inconsequentes ações humanas, ao aquecimento global e às centenas de desastres naturais que se sucederam. Naquele ano, misteriosamente, todas os animais marinhos já haviam adquirido a capacidade de pensar e falar. Logo, passaram a ter comportamentos típicos da (ir) racionalidade humana. Aprenderam sobre o amor e o ódio, criaram suas próprias línguas e adotaram crenças. Eram, pois, seres culturais, de sentimentos dúbios, como os humanos. O fundo do mar, que sempre fora diverso em quantidade de espécies, agora era, também, um ambiente marcado pela diversidade cultural. Conflitos, por óbvio, tornaram-se corriqueiros. A predação, inclusive, deixou de ser apenas uma questão de necessidade básica alimentar para se tornar um problema sociopolítico. Quando alguns grupos se perceberam geneticamente mais fortes que outros, logo trataram de se impor e a ditar as regras, a dizer o que é belo ou feio, certo ou errado. No âmbito familiar, por exemplo, o conservadorismo imperava. Qualquer comportamento que fugisse aos ditames da família tradicional era fatalmente combatido. E foi nesse contexto que, num certo dia, as pequenas criaturinhas reapareceram. Um tubarão ultraconservador, durante o trabalho de caça, deparou-se com a cena mais repugnante de toda a sua vida: um lindo cavalo- marinho em trabalho de parto. As criaturinhas, sábias, (re) aprenderam a resistir. https://www.instagram.com/loio_la/ [143]